Estudo descreve uma espécie extinta de polvo que pode ter alcançado até 19 metros de comprimento
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| Figura 1. Reconstrução artística de um cefalópode da espécie Nanaimoteuthis. |
Em um estudo publicado na Science (Ref.1), cientistas descreveram fósseis de polvos extintos gigantes - apelidados também de kraken, em referência aos monstros mitológicos - que podem ter atingido de ~7 até quase 19 metros de comprimento. A estimativa dimensional se baseia na análise comparativa de mandíbulas ou bicos fossilizados, que, segundo os pesquisadores, mostram padrões de desgaste resultantes da ingestão de animais com carapaças e esqueletos duros. Além disso, padrões de desgaste assimétricos indicaram comportamento lateralizado desses polvos, sugerindo inteligência avançada. O achado sugere que esses moluscos - que viveram no Cretáceo Tardio (~100 a 72 milhões de anos atrás) - eram superpredadores no oceano junto com outros grandes répteis marinhos desse período.
"Algumas pessoas vão duvidar que esses polvos realmente cresciam até 19 metros. Tenho certeza disso," disse em entrevista o paleobiólogo Christian Klug, da Universidade de Zurich, Suíça, comentando sobre o estudo (Ref.2).
"A maioria dos polvos do Cretáceo que conheço tem o tamanho da minha mão, mas esse é muito maior!", disse em entrevista Zoe Hughes, curadora sênior de cefalópodes fossilizados do Museu de História Natural de Londres, comentando sobre o estudo (Ref.3). "Embora só tenhamos as partes rígidas deste animal para comparação, as proporções usadas para estimar o tamanho deste polvo são baseadas em exemplos razoáveis e recentes. Exceto se essa espécie tivesse um formato corporal muito diferente de outros polvos, acho que essas estimativas de tamanho são justas. É muito legal saber que um invertebrado tão grande já viveu na Terra."
Os polvos são moluscos marinhos predadores da classe Cephalopoda, da ordem Octopoda (oito pés), possuindo oito braços fortes e com ventosas dispostos à volta da boca. Caçam com os braços e matam suas presas com o bico quitinoso - também referenciada como mandíbulas quitinosas. Localizado no centro dos braços e ao redor da boca, o bico dos polvos funciona de forma similar ao bico de aves, sendo usado para quebrar conchas de bivalves, carapaças de crustáceos ou ainda cortar pedaços de peixes e de outros cefalópodes.
Os polvos possuem a visão bem desenvolvida e aqueles da subordem Incirrata são capazes de mudar a cor corporal (camuflagem) para confundir a presa ou como mecanismo de defesa - através de cromatóforos na pele. São predadores ativos e oportunistas, com a captura das presas sendo realizada pelos tentáculos, através dos quais o alimento é levado à boca. Dentro da massa bucal, existe a rádula, utilizada para a raspagem mecânica como a perfuração de conchas quando o animal não consegue quebrá-las com o bico.
Polvos e outros cefalópodes são invertebrados com alta capacidade cognitiva e exibem um sistema nervoso complexo que evoluiu de forma independente dos vertebrados (Ref.10). Os braços do polvo exploram o fundo do mar como oito "línguas"- musculares; uma única ventosa contém cerca de 10 mil células sensoriais. A maioria dos ~500 milhões de neurônios do polvo está distribuída nos braços - e não no cérebro - e esses apêndices podem operar de forma autônoma (Ref.11).
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Os superpredadores impõem fortes efeitos de cima para baixo na biodiversidade e nas estruturas dos ecossistemas. Nesse contexto, os vertebrados têm sido superpredadores nos ecossistemas marinhos há mais de 370 milhões de anos. Esses animais evoluíram repetidamente para tamanhos corporais grandes, permitindo habilidades de caça avançadas por meio de força física, mobilidade e cognição aprimoradas alometricamente. Esse padrão foi reforçado pela adaptação iterativa dos vertebrados tetrápodes desde o início do Mesozoico (~250 Ma) - incluindo répteis marinhos extintos e cetáceos.
No final do Mesozoico (~200 a 66 Ma), a radiação de vertebrados durofágicos, ou seja, predadores que esmagam conchas, abriu uma nova fase na evolução impulsionada por predadores, moldando o ecossistema marinho antigo e moderno. Os invertebrados desse intervalo serviram principalmente como pequenas presas, desenvolvendo conchas duras e mineralizadas para proteção ao longo do tempo.
Os polvos (subordens Cirrata e Incirrata) - que prosperam como carnívoros inteligentes de nível intermediário nos oceanos atuais - e seus grupos basais compõem a superordem Octobrachia, um grupo que desmineralizou suas conchas protetoras. Esse grupo passou por múltiplas diversificações após o Triássico Superior, nas quais a concha externa foi reduzida e, consequentemente, os polvos possuem apenas conchas vestigiais ou nenhuma concha. Essa evolução dos polvos para uma forma de corpo mole representa uma inovação fundamental que aprimorou a capacidade de natação e facilitou a melhoria da visão e da inteligência.
Entre os fósseis de Octobrachia, vários gêneros gigantescos, com mais de 2 m de comprimento total, têm sido documentados em sedimentos mesozoicos por suas mandíbulas quitinosas e gládios (remanescentes da concha). Esses chamados "krakens" podem ter sido carnívoros de alto nível na época (ex.: superpredadores). No entanto, a posição desses polvos gigantes na cadeia alimentar permanece completamente desconhecida, já que evidências diretas, como o conteúdo estomacal desses gigantes, não foram encontradas até hoje.
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Para esclarecer a posição dos polvos gigantes na teia alimentar marinha, os pesquisadores no novo estudo analisaram 27 bicos fossilizados de grande porte - associados a sedimentos do Cretáceo - e avaliaram os padrões de desgaste em mandíbulas fossilizadas de antigos parentes dos polvos. Do total de bicos investigados, 15 haviam sido previamente descritos (reanálise) e 12 foram novas descobertas reportadas no estudo.
O desgaste no bico – produzido pela mordida em presas duras e esqueléticas – deixa danos característicos semelhantes aos observados em cefalópodes modernos que esmagam conchas. As medidas do bico de um polvo também podem ser usadas para estimar o tamanho corporal geral do espécime.
Entre os novos fósseis descritos, os pesquisadores identificaram duas espécies principais do gênero Nanaimoteuthis: N. jeletzkyi e N. haggarti. As análises apontaram que esses polvos pertencem à subordem Cirrata ou Cirrina (ordem Octopoda) e estavam associados a sedimentos de ~100 a 72 milhões de anos atrás (N. jeletzkyi) e ~86 a 72 milhões de anos atrás (N. haggarti). Em particular, análises comparativas apontaram que o N. haggarti atingia tamanhos colossais, variando de 7 a 19 metros, rivalizando com o tamanho de répteis marinhos gigantes que coexistiam com esses moluscos gigantes - e potencialmente representa o maior invertebrado e um dos maiores organismos marinhos do Cretáceo até o momento descritos (Fig.4). O bico do N. haggarti é 1,5x maior do que o maior bico entre os cefalópodes ainda vivos (~80 mm): a lula-gigante, com um manto que pode alcançar 2,5 m e um comprimento total de até ~12 m.
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> Estimativas dimensionais para as duas espécies do gênero Nanaimoteuthis descritas: N. jeletzkyi, com um comprimento de manto de ~0,67 a 1,84 m, atingiu um comprimento total de ~2,8 a 7,7 m, e N. haggarti, com um comprimento de manto de ~1,58 a 4,43 m, atingiu um comprimento total de ~6,6 a 18,6 m. Essas dimensões são comparáveis às lulas gigantes e colossais modernas. Sugestão de leitura: Lula colossal é filmada no seu habitat natural pela primeira vez
> Considerando que o N. haggarti viveu em um período ~15 milhões de anos após o N. jeletzkyi, isso sugere que os polvos da subordem Cirrata evoluíram gigantismo cada vez maior no sentido do final do Cretáceo.
> Polvos cirrados vivem em grandes profundidades e não possuem cromatóforos e nem saco de tinta. Diferente daqueles do grupo Incirrata, os cirrados possuem uma única fileira de ventosas em cada braço e em cada uma das ventosas um par de projeções similares a cílios chamadas "cirri", daí o nome Cirrata. Vários possuem duas nadadeiras na cabeça e membranas de pele entre os braços. Os cirrados mais antigos conhecidos são justamente aqueles descritos do gênero Nanaimoteuthis.
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Mas relevante apontar que a relação entre o manto e os tentáculos dos cefalópodes modernos é altamente variável. Portanto, os limites inferiores ou médios das estimativas de tamanho podem talvez ser mais prováveis para as espécies gigantes de Nanaimoteuthis (Ref.2).
Nos maiores indivíduos descritos no novo estudo, os bicos apresentavam desgaste extenso (até ~10% do comprimento total), com características antes afiadas em juvenis pequenos tornando-se sem ponta ou arredondadas com o tempo (Fig.5). Os padrões de desgaste sugerem que essas criaturas eram carnívoras ativas que rotineiramente esmagavam conchas e ossos duros com mordidas poderosas e usavam seus braços longos e flexíveis para capturar presas de porte considerável, enquanto as desmembravam com seus bicos fortes. E possivelmente predavam também grande répteis marinhos da época, incluindo plesiossauros e mosassauros.
Os bicos também tendiam a ser mais degradados de um lado do que do outro, algo que pode indicar o equivalente à lateralidade nos cefalópodes - e até mesmo à inteligência. Assim como os humanos são destros ou canhotos, os polvos modernos preferem usar certos braços para tarefas específicas. Essa lateralidade está relacionada à complexidade do cérebro.
Os achados indicam que N. jeletzkyi e N. haggarti não eram meramente presas, mas participantes altamente ativos na formação de ecossistemas marinhos, ocupando papéis anteriormente atribuídos apenas a grandes vertebrados. Em específico, superpredadores potencialmente muito inteligentes.
Importante lembrar que os polvos são animais de sangue frio com capacidade de respirar debaixo d'água através de brânquias e aqueles ainda vivos da subordem Cirrata vivem em grandes profundidades. Os "krakens" possivelmente prosperavam em águas mais profundas e com presas no geral diferentes daquelas dos mosassauros e outros superpredadores vertebrados do Cretáceo Superior - esses últimos provavelmente caçando e vivendo mais perto da superfície.
Leitura recomendada:
REFERÊNCIAS
- Ikegami et al. (2026). Earliest octopuses were giant top predators in Cretaceous oceans. Science, Vol. 392, Issue 6796, pp. 406-410. https://doi.org/10.1126/science.aea6285
- https://www.nature.com/articles/d41586-026-01342-w
- https://www.nhm.ac.uk/discover/news/2026/april/largest-ever-octopus-top-predator-dinosaur-era-oceans.html
- https://institutodepesca.org/index.php/bip/issue/view/sumario38_4
- Xavier et al. (2022). The significance of cephalopod beaks as a research tool: An update. Frontiers in Physiology, 13:1038064. https://doi.org/10.3389/fphys.2022.1038064
- https://sites.unisanta.br/revistaceciliana/edicao_12/7.pdf
- https://doi.org/10.1590/S0036-46652007000100011
- https://doi.org/10.1007/s11160-022-09744-5
- https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/95374/297063.pdf
- Zolotarov et al. (2022). MicroRNAs are deeply linked to the emergence of the complex octopus brain. Science Advances, Vol. 8, No. 47. https://doi.org/10.1126/sciadv.add9938
- Villar et al. (2026). A sensory system for mating in octopus. Science, Vol. 392, No. 6793. https://doi.org/10.1126/science.aec9652
Reviewed by Saber Atualizado
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abril 28, 2026
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