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Estudo experimental mostrou que plantas podem absorver nutrientes através da poeira atmosférica

Figura 1. Planta da espécie Salvia fruticosa dentro de uma estrutura de exposição à poeira usada no estudo. Ref.1

Embora poeira atmosférica seja uma importante fonte de nutrientes para ecossistemas marinhos, sua importância para a nutrição de plantas terrestres tem sido em geral ignorada devido à ideia de que os macro- e micronutrientes como minerais e potássio são adquiridos naturalmente apenas do solo a partir das raízes. Agora, um estudo de campo - publicado no periódico New Phytologist (Ref.1) - mostrou que plantas podem adquirir esses nutrientes também a partir de poeira atmosférica que é depositada e dissolvida nas folhas, onde elementos como fósforo e ferro são liberados.


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Todos os anos, bilhões de toneladas de partículas de poeira mineral são levantadas pelos ventos de áreas áridas e sem vegetação e transportadas por todo o globo, onde impactam os processos atmosféricos e o clima global e redistribuem elementos essenciais à vida a milhares de quilômetros de sua origem. Após a deposição, as partículas de poeira podem fertilizar ecossistemas marinhos e terrestres, fornecendo macronutrientes como fósforo (P), potássio (K) e magnésio (Mg), juntamente com micronutrientes como ferro (Fe), manganês (Mn), cobre (Cu) e níquel (Ni). Nos ecossistemas marinhos, os eventos episódicos de poeira fornecem pulsos de P e micronutrientes que são escassos na água do mar, desencadeando impactos imediatos na produtividade biológica.


No ambiente terrestre, o solo é classicamente visto como a única fonte desses nutrientes para as plantas, e os impactos da deposição de poeira são considerados relevantes apenas em escalas de tempo milenares, influenciando o desenvolvimento e as propriedades físico-químicas do solo a longo prazo, enquanto reabastecem lentamente os estoques de nutrientes do solo. No entanto, uma fração substancial da poeira depositada não atinge o solo imediatamente, sendo interceptada pela folhagem das plantas devido à sua grande área superficial e à complexa arquitetura foliar, o que amplifica a interceptação de partículas atmosféricas sobre o ecossistema em várias ordens de magnitude.


Embora parte da poeira possa ser eventualmente lavada da superfície da folha para o solo, seu contato prolongado e direto com a folhagem concentra a deposição nos tecidos vegetais, evitando a imobilização mediada pelo solo e reduzindo a competição interespecífica. Além disso, as superfícies das folhas criam um ambiente químico distinto (ligeiramente ácido devido ao acúmulo de ácidos orgânicos) que aumenta a dissolução de nutrientes que, de outra forma, seriam pouco solúveis no solo. Consequentemente, a disponibilidade real de nutrientes transportados pela poeira para as plantas pode ser maior do que o comumente pensado, principalmente quando considerada absorção foliar direta.


Aliás, a fertilização foliar é uma prática comum na agricultura comercial para corrigir rapidamente deficiências nutricionais - através de spray com soluções ou suspensões de moléculas, íons, partículas ou nanopartículas -, especialmente em condições de disponibilidade limitada de nutrientes no solo (Ref.2-3). Solutos polares, como sais nutrientes, penetram na cutícula através de poros polares hidrofílicos. Moléculas grandes (ex.: quelatos de ferro) podem penetrar na superfície superior das folhas - que não possui estômatos - e as taxas de absorção de nutrientes minerais são frequentemente maiores na superfície inferior da folha - que contém estômatos - do que na superfície superior (Ref.4).


Macronutrientes como nitrogênio (N) e K apresentam alta mobilidade e rápida distribuição nos tecidos vegetais após aplicação foliar. Para compostos nitrogenados como a ureia, as soluções de N aplicadas via foliar são altamente permeáveis; por exemplo, 30% de ureia aplicada [via foliar] pode ser absorvida pelas folhas em uma hora (Ref.5). 


E, notavelmente, plantas carnívoras são especialistas em absorver macro- e micronutrientes através de folhas modificadas.


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O novo estudo, conduzido em um ambiente natural de matagal no Mediterrâneo, simulou eventos de transporte de poeira atmosférica. O local do experimento recebe alta deposição anual de poeira mineral dos desertos da Arábia e do Saara (c. 100 g m⁻² ano⁻¹) e está situado em solo alcalino e bem aerado que restringe a biodisponibilidade de nutrientes devido à baixa solubilidade em condições de pH elevado e redox. Eventos episódicos de grande deposição natural de poeira que ocorrem nesse local - com duração tipicamente de 15 a 30 dias - foram simulados no experimento.


A aplicação de poeira no experimento aumentou de forma significativa as concentrações de macro- e micronutrientes nas plantas por meio das folhas levemente ácidas - as quais criam um microambiente que promove a dissolução da poeira e a liberação de nutrientes.


Figura 2. Poeira espalhada sobre as folhas durante o estudo experimental. Foram aplicados três pulsos distintos de poeira na folhagem de Cistus creticus, Salvia fruticosa e Teucrium capitatum, três espécies de plantas amplamente distribuídas no local de estudo. Para rastrear a contribuição nutricional da poeira para as plantas e distinguir entre a absorção de nutrientes provenientes da poeira e a provenientes do solo, foi utilizada poeira mineral vulcânica com uma assinatura única de Elementos de Terras Raras (ETR), distinta dos solos locais. Ref.1


Ao integrar observações de campo com estimativas de deposição de poeira e dados de nutrientes do solo de diferentes regiões, os pesquisadores descobriram que a obtenção anual de nutrientes - derivados da poeira - através das folhas pode representar até 17% dos fluxos de ferro provenientes do solo no oeste dos Estados Unidos e até 12% dos fluxos de fósforo na Amazônia Oriental. Durante eventos de poeira no Mediterrâneo, a obtenção diária de nutrientes mostrou potencialmente se igualar ou exceder os fluxos provenientes do solo. 


O estudo apontou que a deposição de poeira pode contribuir com até 1000% dos fluxos diários biodisponíveis de Fe e P em relação aos fluxos do solo, e com até 50% e 5% para Cu e Mn, respectivamente. Essas contribuições exibiram um gradiente de impacto pronunciado de sul para norte, refletindo a proximidade com as principais fontes de poeira nos desertos do Saara e da Arábia.


Na floresta amazônica oriental, fósforo fornecido pela poeira transatlântica do Saara parece compensar a biodisponibilidade excepcionalmente baixa de P no solo da região.


"Isso sugere uma mudança da visão tradicionalmente centrada no solo para a aquisição de nutrientes em direção a uma via mediada pela vegetação, onde a copa das plantas atua como uma interface ativa para a captura e processamento de partículas atmosféricas", disse em entrevista o Dr. Anton Lokshin, pesquisador de pós-doutorado da Universidade Ben-Gurion do Neguev, Israel (Ref.6). "Em ecossistemas com limitação de nutrientes, essa via de nutrientes baseada nas folhas pode representar uma contribuição importante e atualmente negligenciada para a nutrição das plantas e o funcionamento do ecossistema."


O estudo fornece a primeira evidência experimental de que a deposição de poeira pode contribuir substancialmente para a nutrição das plantas por meio da absorção foliar direta, uma característica potencialmente prevalente em muitas espécies vegetais. A eficiência real de absorção provavelmente é influenciada por características específicas da planta, como densidade de tricomas, composição cuticular e distribuição estomática, bem como pelo tipo de vegetação e condições climáticas locais (ex.: umidade e precipitação).


Os achados do estudo em especial apontam um importante papel da absorção de poeira foliar na nutrição das plantas em ecossistemas pobres em nutrientes (ex.: solo da Amazônia) e afetados por significativos fluxos atmosféricos de poeira.



REFERÊNCIAS

  1. Lokshin et al. (2026). Atmospheric dust is a global nutrient source for plants via foliar uptake. https://doi.org/10.1111/nph.71112
  2. Rodriguez et al. (2024). Pimentel et al. (Mineral Particles in Foliar Fertilizer Formulations Can Improve the Rate of Foliar Uptake. Plants, 13(1), 71. https://doi.org/10.3390/plants13010071
  3. Ahmed et al. (2023). Impact of Foliar Application of Zinc and Zinc Oxide Nanoparticles on Growth, Yield, Nutrient Uptake and Quality of Tomato. Horticulturae 9(2), 162. https://doi.org/10.3390/horticulturae9020162
  4. T. Eichert (2012). https://doi.org/10.17660/ActaHortic.2013.984.5
  5. Hu et al. (2023). Editorial: Factors affecting the efficacy of foliar fertilizers and the uptake of atmospheric aerosols, volume II. Frontiers in Plant Science, Volume 14. https://doi.org/10.3389/fpls.2023.1146853
  6. https://www.bgu.ac.il/en/news-and-articles/plants-absorb-nutrients-from-atmospheric-dust/

Estudo experimental mostrou que plantas podem absorver nutrientes através da poeira atmosférica Estudo experimental mostrou que plantas podem absorver nutrientes através da poeira atmosférica Reviewed by Saber Atualizado on maio 01, 2026 Rating: 5

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