Cientistas reportaram e descreveram uma "guerra civil" entre chimpanzés selvagens
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| Figura 1. Um reunião entre machos do grupo de Ngogo antes da fissão permanente. |
Um estudo publicado esta semana na Science (Ref.1) descreveu um raro evento: fissão permanente e violenta do maior grupo de chimpanzés selvagens (Pan troglodytes) conhecido - Ngogo, no Parque Nacional de Kibale, Uganda. No pico populacional desse grupo, existia um total superior a 200 indivíduos. Uma transição de coesão e polarização do grupo ocorreu em 2015, resultando na emergência de dois grupos distintos em 2018. Nos próximos 7 anos, membros de um grupo realizaram 24 ataques, matando pelo menos 7 machos adultos e 17 filhotes do outro grupo.
"É especialmente notável o fato dos chimpanzés estarem matando antigos membros do grupo", disse em entrevista Aaron Sandel, professor associado de antropologia da UT Austin e autor principal do novo estudo (Ref.2). "As novas identidades de grupo estão se sobrepondo às relações de cooperação que existiam há anos."
A guerra e outras formas de violência coletiva têm moldado as sociedades humanas por milênios, mas suas origens e mecanismos ainda são debatidos (1). Uma importante linha de pesquisa sugere que etnia, religião, idioma e outros marcadores culturais ancoram as identidades de grupo e motivam a cooperação dentro dos grupos e a hostilidade em relação a pessoas de fora. Essa hipótese dos marcadores culturais, no entanto, não consegue explicar como as identidades de grupo se reconfiguram para produzir hostilidade dentro de comunidades anteriormente coesas, como ocorre em rebeliões e guerras civis. Uma explicação alternativa sugere que a mudança nos laços interpessoais e as rivalidades locais - ex.: resultantes de mudanças nos contextos sociais ou mesmo divisões arbitrárias - são suficientes para fragmentar grupos e gerar violência coletiva, independentemente dos marcadores culturais.
Além dos humanos, outras espécies de animais ainda vivos não possuem religião, instituições culturais ou ideologia política; contudo, várias exibem componentes de guerra humana, incluindo conflitos territoriais e agressão letal (ex.: mangusto-listrado, leões e lobos). Muitas espécies que vivem em grupo sofrem fissões permanentes, o que revela como a composição do grupo pode se reorganizar na ausência de marcadores culturais. Porém, na maioria das espécies, as fissões permanentes parecem reduzir a competição por alimento ou as pressões sociais internas e não estão associadas à agressão letal entre grupos como resultado.
Chimpanzés - junto com os bonobos (Pan paniscus) - são os nossos parentes evolucionários mais próximos ainda vivos. Os chimpanzés machos permanecem nos seus grupos natais - ou seja, onde nasceram - para o resto da vida e cooperam na defesa territorial e em incursões letais contra grupos estranhos ou rivais.
Os chimpanzés possuem boa noção de quem pertence ao grupo e quem não pertence - especialmente os machos. Como resultado, qualquer macho desconhecido é considerado um estranho, sem histórico de afiliação ou cooperação com chimpanzés de outros grupos. A intensa hostilidade em relação a machos de outros grupos é adaptativa, porque ataques letais contra indivíduos de fora podem levar à expansão territorial e ao aumento da fertilidade das fêmeas e da sobrevivência dos filhotes.
Nesse sentido, a maior parte da agressão organizada e violência letal contra chimpanzés machos maduros ocorrem entre membros de grupos distintos e pode ser explicada por hostilidade contra indivíduos externos e desconhecidos. Mas em certos casos essa violência pode ocorrer contra indivíduos familiares.
Um potencial exemplo nesse último ponto tem sido reportado em um grupo de chimpanzés em Gombe, Tanzânia, na década de 1970, que sofreu uma cisão: machos de um dos dois novos grupos resultantes mataram uma fêmea adulta e todos os machos no outro grupo ao longo de um período de 4 anos. Porém, dados científicos para esse evento são limitados e os chimpanzés envolvidos no evento recebiam alimento dos pesquisadores - algo que pode ter influenciado de forma significativa no comportamento natural desses primatas.
Evidência genética sugere que eventos de fissão permanente em grupos de chimpanzés são muito raros, ocorrendo uma vez a cada 500 anos.
No novo estudo, pesquisadores da Universidade do Texas em Austin, EUA, e outras instituições reportaram e descreveram a primeira fissão permanente, clara e seguida por violência sustentada entre chimpanzés selvagens. Para isso, foram analisados dados sociais, demográficos e geográficos dos chimpanzés do grupo de Ngogo ao longo de décadas - desde meados da década de 1990.
Inicialmente, os chimpanzés de Ngogo formavam um único e grande grupo nas primeiras duas décadas de observação, constituído por dois subgrupos (Ocidental e Central). Assim como em chimpanzés de outros lugares, eles exibiam altas dinâmicas de fissão-fusão, formando frequentes associações temporárias ou "partidos" que mudam ao longo do dia à medida que os indivíduos se movem ao longo de um território comum. Em outras palavras, indivíduos de ambos os subgrupos se reuniam, interagiam amistosamente e se separavam constantemente. Na média, anualmente, 29% dos indivíduos de Ngogo trocavam de subgrupo. De 2004 a 2014, análises genéticas mostraram que 44% dos filhotes eram gerados por machos e fêmeas pertencendo a diferentes subgrupos (fluxo genético intenso entre os chimpanzés Ocidental e Central).
Os machos adultos de Ngogo formavam uma dominância hierárquica linear - associada em partidos de sexos misturados - caçavam juntos e cooperavam nas patrulhas territoriais (2). Fêmeas tipicamente dispersavam na adolescência, enquanto machos permaneciam no grupo por toda a vida.
Observações comportamentais apontaram que uma divisão importante ocorreu no dia 24 de junho de 2015, quando membros dos subgrupos Ocidental e Central se aproximaram perto do centro de seus territórios. Em vez de se reunirem da maneira típica de fissão-fusão, os chimpanzés Ocidental fugiram e os chimpanzés Central os perseguiram. Seguiu-se um período prolongado e inédito de seis semanas de evitação. A partir daí, a polarização começou a aumentar entre os dois subgrupos.
Em 2016, os machos Ocidental iniciaram a primeira patrulha territorial direcionada em larga extensão contra os chimpanzés Central. Nessa patrulha, os machos Ocidental foram acompanhados por dois machos do outro subgrupo. Depois disso, as patrulhas dos chimpanzés Ocidental incluíram apenas membros desse subgrupo. Em 2017, os machos Central realizaram a primeira patrulha contra os chimpanzés do outro subgrupo, e as interações agressivas entre eles aumentaram. Durante um encontro em 2017, os chimpanzés Ocidental atacaram coletivamente e feriram gravemente o macho alfa, que pertencia ao subgrupo Central, mas havia feito parte do grupo Ocidental antes de 2014. As patrulhas de ambos os subgrupos aumentaram nos meses seguintes.
Em 2017, em meio à crescente polarização, os chimpanzés dos dois subgrupos começaram a usar territórios amplamente distintos. O que antes era o centro de um território compartilhado se tornou uma fronteira. Isso foi acompanhado por isolamento reprodutivo: após 2015, todos os filhotes eram gerados por machos e fêmeas pertencentes a um mesmo subgrupo.
Em 2018, a fissão permanente se tornou mais evidente com base em múltiplos dados sociais, espaciais e reprodutivos. Dois grupos distintos emergiram.
O grupo Ocidental era composto por 10 machos e 22 fêmeas com 12 anos ou mais de idade. O grupo Central - significativamente maior - era composto por 30 machos e 39 fêmeas com 12 anos ou mais de idade.
Algumas fêmeas do grupo Central e seus filhotes dependentes ainda ocasionalmente se juntavam aos chimpanzés Ocidental em figueiras. Após 2018, no entanto, observações comportamentais e análises de redes não mais mostraram relações de afinidade entre os membros dos dois grupos.
Após a fissão permanente, chimpanzés Ocidental mataram muitos chimpanzés do grupo Central em uma série de ataques coletivos (Fig.2). Todos os ataques observados ocorreram após patrulhas territoriais de membros do grupo Ocidental no território do grupo Central. Foram observados 6 ataques letais contra machos adultos e um sétimo ataque inferido com alta confiança. Essas observações apontaram uma transição para um conflito letal contínuo entre indivíduos que antes pertenciam ao mesmo grupo.
Começando em 2021, a agressão letal (violência) se expandiu para os filhotes. Foram observados 14 infanticídios (6 fêmeas, 2 machos e 2 com sexo indeterminado) e inferidos mais 3 infanticídios por machos Ocidental contra filhotes Central. Os chimpanzés do grupo Ocidental atacaram e mataram, na média, 1 adulto macho e 2 filhotes por ano do grupo Central entre 2018 e 2024. E essas taxas provavelmente são subestimadas. Entre 2021 e 2024, mais 14 machos adultos e adolescentes morreram no grupo Central e vários dos corpos desaparecem antes que pudessem ser analisados; nenhum desses machos exibiam sinais de adoecimento enquanto foram observados vivos.
Segundo os autores do estudo, vários fatores sociais e demográficos podem ter contribuído para a fissão permanente e "guerra civil" resultante.
Com quase 200 indivíduos, incluindo mais de 30 machos adultos, o grupo Ngogo excedia o tamanho de outros grupos de chimpanzés, potencialmente sobrecarregando a capacidade de manutenção de relacionamentos. A competição por alimento, exacerbada pelo grande tamanho do grupo, desempenha um papel nas fissões permanentes em muitas outras espécies de primatas. Embora o território de Ngogo produz alimento em abundância, a produção de frutas varia ao longo do tempo e do espaço, e os chimpanzés podem ter enfrentado uma crescente competição por alimento. Além disso, o isolamento reprodutivo precedeu a fissão completa em dois grupos - com machos do subgrupo maior (Central) aparentemente perdendo acesso às fêmeas do subgrupo Ocidental. Isso provavelmente exacerbou a competição entre machos, sugerindo competição reprodutiva como um fator contribuinte.
Três fatores adicionais podem ter atuado como catalisadores.
Primeiro, a grande mudança na rede social foi precedida pela morte de cinco machos adultos e uma fêmea adulta em 2014. As causas das mortes são desconhecidas, mas dois indivíduos apresentaram sinais clínicos de enfermidade, levantando a possibilidade de que alguns tenham morrido por causa de alguma doença. Essa grande perda (>10% dos machos adultos) de membros em um intervalo relativamente curto de tempo pode ter perturbado a estrutura social e enfraquecido os laços sociais dentro do grupo. De fato, alguns desses machos adultos que faleceram eram importantes conectores socais.
Em segundo lugar, uma mudança no macho alfa em 2015 coincidiu com a primeira separação sustentada entre membros dos subgrupos Ocidental e Central. Mudanças na hierarquia de dominância podem aumentar a agressividade e o isolamento entre membros em chimpanzés. Em Ngogo, tanto o alfa que caiu quanto aquele que emergiu faziam parte do subgrupo Central, embora o novo alfa tivesse feito parte do subgrupo Ocidental antes de ascender na hierarquia de dominância. Embora uma mudança no macho alfa por si só não explique por que o grupo de Ngogo se dividiu, pode ter amplificado as tensões entre os dois grupos.
Por fim, um terceiro fator pode ter contribuído para a fissão. Em janeiro de 2017, uma epidemia respiratória matou 25 chimpanzés, incluindo quatro machos adultos e 10 fêmeas adultas. Embora isso tenha ocorrido depois que a polarização já estava em curso, pode ter acelerado a separação final. Dois dos machos adultos que morreram faziam parte do subgrupo Ocidental, e um deles estava entre os últimos indivíduos a conectar os dois grupos.
O estudo traz evidências - com significativas limitações comparativas - sugerindo que marcadores culturais de identidade de grupo, como diferenças étnicas ou religiosas, podem não ser essenciais para engatilhar conflitos violentos em larga escala entre humanos, incluindo guerras civis.
Mas é importante realçar que chimpanzés exibem também traços culturais e que comportamento de vingança não é observado nesses primatas - esse último aspecto provavelmente devido à ausência de linguagem. Em humanos, vingança atua de forma importante nos conflitos entre indivíduos e grupos. Além disso, nossa espécie exibe maior pró-socialidade e cooperação e nem sempre relações entre grupos vizinhos e distintos são hostis como observado em chimpanzés.
Leitura recomendada:
- (1) A violência humana está sendo reduzida com o tempo?
- (2) Bonobos machos são mais agressivos do que chimpanzés machos, apontam estudos
REFERÊNCIAS
- Sandel et al. (2026). Lethal conflict after group fission in wild chimpanzees. Science, Vol. 392, No. 6794. https://doi.org/10.1126/science.adz4944
- https://news.utexas.edu/2026/04/09/first-clearly-documented-split-in-worlds-largest-known-chimpanzee-community-leads-to-deadly-violence/
- https://www.science.org/content/article/what-plunged-these-chimps-civil-war-new-study-traces-breakdown
- https://www.eurekalert.org/news-releases/1122783
Reviewed by Saber Atualizado
on
abril 12, 2026
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