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Estudo reportou o que parece ser a primeira "formiga limpadora" conhecida

Figura 1. Várias formigas de menor porte do gênero Dorymyrmex consumindo pequenas partículas sobre o corpo de uma formiga ceifeira.

  
Em um estudo publicado no periódico Ecology and Evolution (Ref.1), o entomologista Mark Moffet - pesquisador associado ao Museu Nacional de História Natural, EUA - descreveu um atípico comportamento entre duas espécies distintas de formigas na região desértica do sudeste do Arizona. Pequenas formigas de uma espécie ainda não descrita (Dorymyrmex sp.) foram observadas lambendo e beliscando as operárias muito maiores da espécie Pogonomyrmex barbatus. E mais notável, os indivíduos potencialmente agressivos e de maior porte sendo atendidos incentivavam o serviço de limpeza, posicionando-se em uma postura rígida e distinta em locais específicos (ex.: perto do ninho da espécie limpadora) e até permitindo que os "limpadores" explorassem entre suas mandíbulas abertas.


"Essa nova espécie de formiga é o equivalente, no mundo dos insetos, aos peixes limpadores do oceano", disse Moffett em entrevista (Ref.2). "As formigas-ceifeiras, potencialmente perigosas, chegam a permitir que os visitantes se limpem entre suas mandíbulas abertas."


O autor do estudo fez as observações em 2006, demorando muito tempo para publicá-las na literatura científica por causa de incertezas sobre a relação ecológica que ele testemunhou e registrou, incluindo os potenciais benefícios entre as partes envolvidas.


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A atividade atípica descrita no estudo tinha início ao nascer do sol e atingia o pico antes das 9h, quando as formigas se recolhiam no calor do dia. As formigas-cone em questão (Dorymyrmex sp.) tinham ninhos com múltiplas entradas. Ocasionalmente, uma formiga-ceifeira se aproximava a 5 cm da entrada do ninho de uma formiga-cone e adotava uma postura característica, erguendo-se rigidamente sobre as pernas traseiras, com o abdômen tipicamente levantado e as mandíbulas abertas. Então, em menos de 1 minuto no geral, uma formiga-cone subia na formiga-ceifeira, lambendo (Fig. 1) e mordiscando ou puxando-a (Fig.2). 


Figura 2. Uma formiga-cone lambendo próximo do olho de uma operária P. barbatus. A formiga-cone possui cerca de 1/3 do tamanho da formiga-ceifeira, essa última com ~7 mm de comprimento.


As formigas-ceifeiras toleravam pacificamente a interação com as formigas-cone por pelo menos alguns segundos, nunca mordendo como resposta. Em uma amostra de 32 dessas interações observadas desde o começo, 4 duraram menos de 15 segundos, 13 menos de 1 minuto, e duas continuaram além de 5 minutos. Até 5 formigas-cone foram observadas se acumulando em uma única formiga-ceifeira (Fig.1). Em um dos casos, uma formiga-cone se locomoveu de uma formiga-ceifeira "imobilizada" para outra (Fig.3). E apenas formigas-ceifeira vivas atraíam a atenção interativa das formigas-cone.

 

Figura 3. Uma formiga-cone andando de uma operária P. barbatus estacionária (A) para outra (B).

O autor do estudo também observou várias vezes uma formiga-ceifeira recuando diretamente para a entrada de um ninho de formigas-cone, onde esperava até que uma operária dessa última subisse a bordo (Fig. 4). E talvez mais relevante, as formigas-cone lambiam e mordiscavam entre as mandíbulas da formiga-ceifeira (Fig. 5). Esses dois comportamentos lembram relações mutualísticas similares no ambiente marinho: peixes que procuram "postos" especiais ocupados por peixes limpadores e como os peixes limpadores (ou camarões) chegam a se alimentar dentro das mandíbulas abertas de um peixe predador maior e potencialmente perigoso. Existem hoje descritos mais de 200 espécies em 108 gêneros de peixes limpadores (Fig.6).

 

Figura 4. Uma operária P. barbatus que havia recuado para a entrada de um ninho de formiga-cone para encorajar o serviço de limpeza.
 

Figura 5. Uma formiga-cone explorando entre as mandíbulas de uma operária P. barbatus


Figura 6. Um peixe limpador da espécie Labroides dimidiatus entrando na boca de um peixe de maior porte para fornecer um serviço de limpeza e se alimentar ao mesmo tempo.

Assim como acontece com os peixes limpadores, o episódio de limpeza geralmente terminava quando a formiga-cone parecia incomodar a formiga-ceifeira: talvez uma mordida muito forte, ou muitas tivessem subido a bordo, ou a formiga "cliente" tivesse recebido limpeza suficiente. Nesse ponto, a formiga-feiticeira agia de modo a espantar as formigas-cone. Quaisquer passageiros restantes eram jogados para o lado enquanto a "cliente" se endireitava e se afastava rapidamente.


Formigas-ceifeiras realizam serviço de limpeza uma nas outras dentro dos seus ninhos, potencialmente removendo detritos, contaminantes, tecido morto, esporos e ectoparasitas. Por que precisam de um serviço extra das formigas-cone? É ainda incerto, mas segundo o autor do estudo é provável que as formigas menores conseguem acessar regiões no corpo das formigas-ceifeiras inacessíveis para outras formigas-ceifeiras. Outra hipótese: troca de microrganismos ou de substâncias benéficas (ex.: antifúngicos e antibactericidas) entre as duas espécies, fortalecendo o microbioma ou a saúde geral de uma ou ambas.


É também possível que a interação interespecífica ofereça vantagem nutricional para as formigas-cone: o corpo de uma formiga-ceifeira provavelmente é rico em lipídios devido à dieta granívora (baseada em sementes), incluindo quaisquer compostos presentes no tegumento ingeridos pelas formigas-cone — outro potencial "benefício indireto" no qual a cooperação surgiu como uma consequência fortuita de ações inerentemente egoístas.


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> O gênero Pogonomyrmex faz parte do grupo conhecido como formigas granívoras, que coletam e estocam sementes em celeiros subterrâneos para consumi-las posteriormente. Estas formigas ocorrem tanto em regiões temperadas quanto tropicais, especialmente em áreas de vegetação árida e semiárida, embora também possam ser encontradas em habitats úmidos. 

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Independentemente dos motivos da relação simbiótica, o contato estendido entre as duas espécies pode levar à transferência de feromônios da colônia das formigas-ceifeiras para as formigas-cone, facilitando a interação pacífica.


Mais estudos serão necessários para esclarecer esses pontos.


REFERÊNCIAS

  1. Moffett et al. (2026). The First Cleaner Ant? A Novel Partnership in the Arizona Desert. Ecology and Evolution, Volume 16, Issue 4, e73308. https://doi.org/10.1002/ece3.73308
  2. https://www.eurekalert.org/news-releases/1123748
  3. https://www.science.org/content/article/interspecies-grooming-ritual-may-have-been-spotted-desert-ants
  4. https://repositorio.ufu.br/handle/123456789/13326

Estudo reportou o que parece ser a primeira "formiga limpadora" conhecida Estudo reportou o que parece ser a primeira "formiga limpadora" conhecida Reviewed by Saber Atualizado on abril 18, 2026 Rating: 5

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