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Aves como os corvos parecem ter consciência, assim como os humanos


Muitas aves são capazes de realizar tarefas que exigem alto poder cognitivo, como manipular ferramentas, entender conceitos abstratos e até mesmo distinguir entre pinturas com base no artista responsável (Monet e Picasso, por exemplo). Entre os mais notáveis exemplos, temos os corvos (família Corvidae) e os papagaios (família Psittacidae). Porém, as aves não possuem um córtex - a área do cérebro em mamíferos onde a memória de trabalho, planejamento e resolução de problemas ocorrem -, e essa drástica diferença cerebral têm intrigado os cientistas há um bom tempo. Agora, em um estudo publicado na Science (Ref.1), pesquisadores encontraram uma rede de microcircuitos neurais desconhecida no cérebro das aves que mostrou ser análoga ao neocórtex dos mamíferos. E, em um outro estudo independente também publicado na Science (Ref.2), pesquisadores ligaram essa mesma região à presença de potencial consciência nos corvos.


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> Sugestão de leitura:


Mamíferos e aves compartilham um ancestral comum que viveu há cerca de 320 milhões de anos. Desde então, o pálio dorsal nesse ancestral - uma região presente no cérebro - eventualmente evoluiu para o córtex cerebral na linhagem levando aos mamíferos. O córtex é composto de camadas corticais correndo em paralelo à superfície cortical, assim como colunas que correm de maneira ortogonal a essas camadas, criando uma organização radial similar a unidades computacionais onde informações são processadas. As camadas corticais contêm diferentes tipos de neurônios, cada um com conexões aferentes e eferentes específicas. Camadas e colunas mostram um característico padrão em cada área cortical, o qual é próximo relacionado à sua conectividade e função. 


No entanto, nas aves, o pálio dorsal se desenvolveu para dar origem a uma estrutura nuclear chamada de hiperpálio, associada também a uma estrutura abaixo do ventrículo lateral chamada de sulco dorsal ventricular (DVR). Essa área é considerada de ser inteiramente ou na maior parte homóloga ao córtex. Apesar do pálio aviário não possuir as seis camadas típicas do córtex, conexões de longo alcance do hiperpálio e do DVR indicam uma clara similaridade neural em relação à arquitetura do córtex presente nos mamíferos.


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Nesse sentido, para comprovar a hipótese de que os circuitos neurais do hiperpálio/DVR correspondem de forma convergente ao córtex de mamíferos, os pesquisadores no primeiro estudo analisaram a arquitetura de fibras paliais via imagem por luz polarizada tridimensional (3D-PLI) em pombos-comuns (Columba livia) e subsequentemente reconstruíram circuitos sensoriais das regiões do hiperpálio e do DVR em pombos-comuns e em corujas-das-torres (Tyto alba) através da aplicação de rastreadores neuronais in vivo e in vitro.


Os resultados revelaram que as aves possuem uma neuroarquitetura previamente não-descrita na parte anterior do cérebro que é, de fato, análoga ao córtex, composta de circuitos canônicos interativamente organizados dentro de entidades ortogonalmente posicionadas como colunas e tangencialmente organizadas como lâminas. O achado fortemente sugere que um microcircuito neural que já existia no último ancestral comum amniota pode ter sido evolucionalmente conservado e parcialmente modificado em aves e em mamíferos. A versão aviária dessa estrutura comum pode, nesse sentido, plausivelmente gerar propriedades computacionais remanescentes do neocórtex (porção mais complexa do córtex) e forneceria, portanto, uma explicação neurobiológica para as características cognitivas e perceptuais que ocorrem em ambos os clados (mamíferos e aves), mesmo filogenicamente tão distantes.



Já no segundo estudo, pesquisadores analisaram as respostas neurais a estímulos visuais em gralhas-pretas (Corvus corone) de 1 ano de idade e treinadas para se moverem ou ficarem paradas em resposta a pistas coloridas disparadas em um monitor. Eletrodos foram implantados no cérebro desses corvos para registrar os sinais neuronais emitidos. Os resultados da análise revelaram que, assim como córtex pré-frontal de primatas, o pálio (hiperpálio e DRV) dos corvos exibem atividade neural que correspondem de forma similar à percepção do animal sobre o que ele está vendo, algo que, segundo os pesquisadores, pode ser uma assinatura empírica de consciência.


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A consciência sensorial, a habilidade de ter experiência subjetiva que pode ser explicitamente acessada e portanto reportada, emerge de processos cerebrais que se estabeleceram ao longo da história evolucionária. Hoje, as correlações neurais de consciência são primariamente associadas com o córtex primata cerebral, uma parte do pálio telencefálico que é laminar em termos de organização. Porém, mesmo sem o córtex típico de mamíferos, as aves demonstram sofisticados comportamentos perceptuais e cognitivos que sugerem experiências de consciência. Gralhas-pretas, em especial, são inclusive referidas como 'primatas superiores com asas' de tão inteligentes.


Esse último estudo, somado com o achado do primeiro, fortemente indica que os corvos possuem experiências conscientes, ou seja, estão cientes do que eles veem e fazem, de forma similar aos humanos e primatas superiores - comumente pensados até o momento os únicos animais que manifestam consciência sensorial (e talvez se estendendo para outros mamíferos). Isso também sugere três cenários evolutivos. No primeiro, o traço de consciência teria emergido do último ancestral comum entre aves e mamíferos, ou seja, há pelo menos 320 milhões de anos. Nesse sentido, muitos outros vertebrados podem também expressar consciência, inclusive répteis. No segundo cenário, a consciência pode ter emergido de forma independente através de evolução convergente entre os vertebrados, especificamente nos clados MammaliaAves. Por fim, existe também a possibilidade das experiências conscientes também emergirem de forma gradual em diferentes grupos filogenéticos de animais, onde diferentes graus de conectividade palial nos vertebrados pode dar origem a aspectos de consciência sensorial.


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Ainda mais importante, os dois estudos representam enormes avanços no campo da neurociência e do entendimento da história evolutiva dos vertebrados. Humanos tendem a acreditar que nós somos a única espécie a possuir certos traços, comportamentos ou habilidades, especialmente referentes à cognição. Ocasionalmente, nós acabamos tendo que estender esses traços "únicos" para outros mamíferos, e com o avanço cada vez maior da ciência, mais e mais desses supostos pilares do excepcionalismo humano acabam sendo derrubados. No final, fica cada vez mais claro o óbvio já apontando por Darwin há mais de 150 anos: somos apenas mais um fruto evolucionário dentro do Reino Animal, mais similares do que diferentes das outras espécies.


> Nos papagaios, alta cognição também parece ser causada por circuitos neurais associados ao núcleo espiriforme medial (SpM). Para mais informações, acesse: Neurocientistas descobrem porque os papagaios são tão inteligentes


REFERÊNCIAS 

  1. https://science.sciencemag.org/content/369/6511/eabc5534
  2. https://science.sciencemag.org/content/369/6511/1626
Aves como os corvos parecem ter consciência, assim como os humanos Aves como os corvos parecem ter consciência, assim como os humanos Reviewed by Saber Atualizado on setembro 25, 2020 Rating: 5

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