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Cientistas revelam possível ancestral direto da nossa espécie

- Atualizado no dia 21 de janeiro de 2023 -

Em um impactante estudo de revisão publicado no periódico Evolutionary Anthropology (Ref.1), um time internacional de pesquisadores, liderado pela paleoantropóloga da Universidade de Winnipeg, Canadá, Dra. Mirjana Roksandic, anunciou o nome de uma nova e importante espécie humana, o Homo bodoensis, determinado ser o tão procurado ancestral direto dos humanos modernos (Homo sapiens). O termo 'bodoensis' deriva de um crânio encontrado em Bodo D'ar, Etiópia, e a nova espécie representa a maioria dos humanos associados ao Pleistoceno Médio na África e alguns do Sudeste Europeu. Nesse mesmo caminho, o estudo propôs rejeitar a espécie Homo heidelbergensis, associada a espécimes que seriam Neandertais (Homo neanderthalensis), e abandonar o nome Homo rhodesiensis, por razões técnicas e políticas.


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ANCESTRAL DIRETO


O estudo da evolução humana no Pleistoceno Médio e Tardio têm avançado muito nas últimas décadas, especialmente com o avanço das técnicas de análise genômica e de DNA antigo. Hoje sabe-se que a nossa espécie (Homo sapiens) possui origem Africana (possivelmente pan-Africana), há pelo menos 200-300 mil anos. É também claro que os humanos modernos estavam já se dispersando para fora da África há mais de 60 mil anos, provavelmente em múltiplas pequenas ondas migratórias, com uma robusta onda migratória ocorrendo pós-60 mil anos atrás. Porém, o ancestral direto dos humanos modernos têm permanecido pouco esclarecido.


No novo estudo, os pesquisadores introduziram uma nova espécie de hominini do Pleistoceno Médio (Período Chibaniano, 774-129 mil anos atrás) que representa o ancestral direto do H. sapiens, o Homo bodoensis  A classificação taxonômica foi baseada primariamente no crânio parcial Bodo 1, pertencente a um indivíduo adulto provavelmente do sexo masculino e descoberto em 1976 na Etiópia. O espécime hoje encontra-se curado no Museu Nacional da Etiópia, em Addis Ababa, e compreende um esqueleto facial danificado, um neurocrânio parcial, e a parte anterior da base do crânio, reconstruídos a partir de dezenas de fragmentos ósseos individuais. A estrutura facial, em geral, está bem preservada, e é notavelmente massiva, com grandes órbitas retangulares, uma região interorbital muito larga, e uma raiz e abertura nasais amplas. Apesar de protuberante e pesadamente constituída, a saliência supraorbital do H. bodoensis é arqueada, segmentada e atenuada lateralmente.  



 

Datado em 600 mil anos atrás via técnica radiométrica Argônio-40/Argônio-39 combinada com análises bioestratigráfica e tefrocronológica (!), o crânio do H. bodoensis traz uma combinação única de traços fenotípicos, misturando características do H. erectus e do H. sapiens, mas significativamente distintos do H. neanderthalensis (particularmente o padrão de protuberância na região supraorbital, do prognatismo na região mediana da face e do formato neurocraniano). O crânio do H. bodoensis traz uma aumentada capacidade craniana que é compartilhada entre a maioria dos homininis no Pleistoceno Médio (excluindo o H. naledi e aqueles isolados em ilhas do Sudeste Asiático, como o H. floresiensis), e intermediária entre o H. erectus e o H. sapiens; esse traço presumivelmente já estava sob seleção no último ancestral comum entre Neandertais, Denisovanos e humanos modernos. Esse último ancestral comum, segundo propõe os autores, é representado por variações tardias do H. erectus (ancestral direto do H. bodoensis).



> Sobre o posicionamento do H. antecessor: Homo erectus era Africano e o misterioso Homo antecessor não é o nosso ancestral direto


Mesmo não possuindo um número de características fenotípicas do H. sapiens - por isso a justificativa para a classificação de uma distinta espécie - todas as características dos humanos modernos podem ser derivadas de traços presentes no H. bodoensis, incluindo a massiva mas segmentada (dividida em partes laterais e medianas) saliência supraorbital.



A descrição do H. bodoensis, além do espécime Bodo 1, foi feita com base em vários crânios individuais do Pleistoceno Médio encontrados na África, como o Kabwe 1 (possivelmente um dos últimos sobreviventes dessa espécie), e em alguns encontrados na Europa, e atendendo às regras do Código Internacional de Nomenclatura Zoológica (ICZN). O H. bodoensis tinha uma distribuição pan-Africana com alcance periférico se estendendo no leste do Mediterrâneo (Sudoeste Europeu e o Levante) a partir de onde pode ter contribuído para a re-população Europeia (e possivelmente a Ásia Central e o Leste Asiático) após os períodos de glaciação. 


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REVISÃO TAXONÔMICA


Para sustentar a descrição do Homo bodoensis e estabelecimento desse novo táxon, o novo estudo propôs rejeitar a existência do Homo heidelbergensis - sugerido anteriormente de representar o último ancestral comum entre Neandertais e humanos modernos, ou o ancestral direto dos Neandertais (Ref.2) - e abandonar a nomenclatura Homo rhodesiensis, ambas as espécies muito marcadas por controvérsias acadêmicas.


No primeiro caso, evidências genéticas e morfológicas acumuladas nas últimas décadas têm apontado que vários espécimes do Pleistoceno Médio antes associadas com o H. heidelbergensis parecem representar, na verdade, Neandertais. De fato, existem muitas similaridades entre as duas espécies, sugerindo ser adequado manter todas em um único táxon, ou seja, o já bem estabelecido H. neanderthalensis. Além disso, espécimes na Ásia, particularmente na China, e na África datadas do Pleistoceno Médio e com distintas características mas sem classificação específica no gênero Homo - isso engloba o próprio Bodo 1 - têm sido genericamente consideradas como pertencentes ao H. heidelbergensis, algo fortemente questionado (Ref.3) e que não atende às regras do ICZN.


No segundo caso, temos o mesmo problema de atribuição taxonômica genérica a distintos espécimes descritos - incluindo alguns associados ao H. bodoensis -, e hipóteses conflitantes sobre o posicionamento evolutivo do H. rhodesiensis (ex.: ancestral de todas as linhagens de homininis do Pleistoceno Tardio). Somando-se a isso, o nome 'H. rhodesiensis' nunca se tornou amplamente usado por paleoantropólogos não apenas devido às controvérsias taxonômicas e cladísticas mas também por causa da bagagem política envolvida. O nome está ligado ao magnata Britânico de exploração de diamantes, Cecil Rhodes, e ao violento colonialismo Inglês na África. Na sua auto-proclamada "Rodnésia" (uma grande região no centro da África), Rhodes promoveu práticas hediondas e genocídio contra as populações de nativos Africanos. O mais prudente, segundo os autores do novo estudo, seria abolir de vez o nome, especialmente porque o táxon mais atrapalha do que ajuda no esclarecimento do percurso evolutivo da linhagem humana.


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CRÍTICAS AO ESTUDO


Após publicação do estudo, algumas pesadas críticas formais emergiram e foram publicadas no Evolutionary Antrhopology como resposta ao paper, acusando os autores de ignorarem certas evidências fósseis, violarem regras taxonômicas, e cometerem vários erros sistemáticos e evolucionários (Ref.4-5). Ultimamente, esses críticos rejeitaram a proposta do Homo bodoensis como uma solução à problemática envolvida com o Pleistoceno Médio. Os autores do estudo, por sua vez, também publicaram um artigo-resposta no mesmo periódico adereçando as críticas e mantendo firme a conclusão do paper original (Ref.6). 


O fato é que a questão do Pleistoceno Médio continua muito controversa e debatida na literatura acadêmica, esperando talvez novas evidências fósseis ou novas propostas teóricas mais compreensivas (Ref.7). Sobre o último ancestral comum entre humanos modernos e neandertais, tem sido sugerido inclusive que esse pode ter tido origem na Ásia, eventualmente migrando para a África e evoluindo finalmente para a nossa espécie (Ref.8).


REFERÊNCIAS

  1. Roksandic et al. (2021). Resolving the “muddle in the middle”: The case for Homo bodoensis sp. nov. Evolutionary Antrhopology. https://doi.org/10.1002/evan.21929 
  2. Stringer, Chris (2012). The status of Homo heidelbergensis (Schoetensack 1908). Volume 21, Issue 3, Pages 101-107. https://doi.org/10.1002/evan.21311
  3. Stelzer et al. (2018). Morphological trends in arcade shape and size in Middle Pleistocene Homo. American Journal of Biological Anthropology, Volume 168, Issue 1, Pages 70-91. https://doi.org/10.1002/ajpa.23721
  4. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/evan.21952
  5. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/evan.21950
  6. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/evan.21954
  7. Castro & Martinón-Torres (2022). "The origin of the Homo sapiens lineage: When and where?" Quaternary International, Volume 634, 10, Pages 1-13. https://doi.org/10.1016/j.quaint.2022.08.001
  8. Harvati et al. (2022). Evolution of Homo in the Middle and Late Pleistocene. Journal of Human Evolution, Volume 173, 103279. https://doi.org/10.1016/j.jhevol.2022.103279
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