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Humanos com uma artéria extra no antebraço estão ficando mais comuns: possível evolução

 
A artéria mediana tem sido considerada uma estrutura embrionária, a qual normalmente regride ao redor da 8° semana de gestação. No entanto, têm sido reportado na literatura acadêmica que a persistência dessa artéria além da gestação até a fase adulta está aumentando de frequência entre humanos modernos (Homo sapiens) desde o final do século XIX. Agora, em um estudo recentemente publicado no periódico Journal of Anatomy (1), pesquisadores confirmaram que o fenótipo de persistência da artéria mediana está de fato ficando cada vez mais comum: enquanto a prevalência dessa estrutura anatômica era de 10% entre as pessoas nascendo na década de 1880, essa prevalência aumentou para aproximadamente 30% até o final do século XX. Segundo os pesquisadores, se essa tendência se manter, até o final do século XXI todos os humanos estarão carregando uma artéria mediana persistente. Esse processo parece estar sendo intermediado por um real processo evolutivo.


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A artéria mediana do antebraço humano têm sido descrita como um vaso fetal que supre a mão e regride com o desenvolvimento das artérias radial e ulnar. A regressão da artéria mediana se inicia aproximadamente na oitava semana da vida intrauterina. No entanto, essa artéria persiste em um considerável número de fetos com idades gestacionais de 13-38 semanas, em recém-nascidos, em bebês e em adultos.


Dois principais fenótipos da persistência da artéria mediana - palmar e antebraço - têm sido descritos. Esses dois tipos de vasos suprem o antebraço e a mão (palmar), ou apenas o antebraço (antebraço). A artéria mediana corre ao longo do nervo mediano no seu lado medial ou lateral na terça parte proximal do antebraço, e na parte distal está localizada entre a superfície anterior do nervo mediano e a superfície mais profunda do músculo flexor digitorum superficialis. O arranjo da artéria mediana tanto na parte proximal do antebraço (fenótipo antebraquial) quando no fenótipo palmar varia de indivíduo para indivíduo. Por exemplo, no fenótipo antebraquial, algumas pessoas possuem essa artéria terminando na parte distal do antebraço, não alcançando o pulso. 



A artéria mediana, quando presente além da gestação, passa através do túnel cárpico, e pode comprimir o nervo mediano, causando a síndrome do túnel do carpo (caracterizada por dormência e formigamento crônicos na mão e no braço). Além disso, limitações espaciais no túnel cárpico podem causar trombose, aneurisma, calcificação ou ruptura traumática da artéria. Em adição, a persistência da artéria mediana pode contribuir para problemas de suprimento de sangue na mão, incluindo isquemia. Nesse sentido, esse fenótipo anômalo é geralmente considerado desvantajoso/deletério quando complicações emergem devido à presença da artéria extra. No entanto, em raros exemplos, a persistência da artéria mediana pode ser vantajosa ao agir como um 'vaso de emergência': se algum dano à artéria radial ou ulnar ocorrer, a mão ainda pode continuar recebendo suprimento sanguíneo compensatório da artéria mediana. Estaria esse último benefício orientando uma maior prevalência dessa artéria na população humana?


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Nesse sentido, no novo estudo, os pesquisadores visaram investigar a prevalência de persistência pós-natal da artéria mediana nos humanos ao longo dos últimos 250 anos e testar a hipótese se uma tendência secular de aumento na sua prevalência tem ocorrido, investigando também co-variáveis étnicas, geográficas e sexuais associadas. Para isso, foi realizada uma análise em 78 cadáveres de indivíduos Australianos com idades de 51 a 101 anos que morreram no período de 2015-2016 e uma revisão da literatura acadêmica.


A análise do membro superior dos cadáveres mostrou uma taxa de prevalência da artéria mediana de 33,3% (26 entre os 78 membros analisados). A análise da literatura acadêmica, após ajuste para possíveis padrões tendenciosos, também mostrou de forma consistente uma prevalência de 30% dessa artéria no final do século XX. Enquanto que em 1846 aproximadamente 10% das pessoas possuíam a artéria, em 1997 essa prevalência aumentou para 30%. Enquanto a prevalência de aproximadamente ou em torno de 30% foi reportada na Austrália, Europa, na África do Sul e na Malásia, a taxa mostrou variar bastante dependendo da localização geográfica, entre 1,5% e 60%. Foram também observadas significativas diferenças nas taxas de prevalência quanto ao sexo (homem/mulher) e quanto à presença da artéria em um (unilateral) ou ambos os braços (bilateral) - com maior prevalência no membro esquerdo. 


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O mecanismo para a regressão da artéria mediana arterial é iniciado e regulado por genes específicos. Persistência dessa artéria na fase adulta indica falha da expressão dessas genes. O aumento de 3 vezes da prevalência desse fenótipo nos últimos 150 anos, portanto, fortemente indica um real processo evolucionário, resultante na mudança da frequência de alelos associados a esses genes. Esses alelos podem ser resultados de alteração ou danos genéticos intermediados por mutações. 


Alternativamente, a grávida durante a gestação pode ter sido sujeita a insultos ambientais, como infecções, antes da iniciação do processo de regressão. Isso pode prevenir o início do processo de regressão da artéria mediana. Esse processo de regressão pode progredir da palma em direção ao cotovelo, e um 'insulto de saúde' (ex.: infecção) pode interromper esse processo, deixando na maior parte das vezes um fenótipo do tipo antebraço residual. Prevalências reportadas de 76% e 73% do fenótipo antebraço comparado com 20% e 27% do fenótipo palmar nos adultos e fetos, respectivamente, podem favorecer essa hipótese. 


No entanto, os avanços e acúmulos de recursos na medicina moderna têm diminuído bastante infecções e outros insultos à saúde, e seria esperado, portanto, que a persistência da artéria mediana diminuísse de prevalência, não aumentasse de forma dramática. Esse último ponto reforça a hipótese de um processo evolucionário ser o responsável pela tendência observada. Existe também a possibilidade de ambos (fatores evolutivos e não-evolutivos) estarem atuando.


Assim como o aumento da prevalência da artéria mediana persistente, outras partes anatômicas têm aumentado de prevalência nos últimos 2-3 séculos entre os humanos modernos, incluindo a espinha bífida oculta, coalizões torsais e a fabela, e com evidências ligando esses mudanças a pressões seletivas (seleção natural) agindo em partes anatômicas específicas. Essas maiores taxas de prevalência, portanto, estariam associadas a processos micro-evolucionários.


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A triplicação de prevalência da artéria mediana ao longo dos últimos 150 anos, caso essa tendência seja extrapolada usando uma regressão linear, pode predizer que a artéria mediana estará presente em 100% dos indivíduos nascidos no ano de 2100 em diante, ou seja, aproximadamente 250 anos depois dessa artéria ter sido primeiro reportada como uma anomalia. Para essa predição se tornar verdadeira, as pressões de mutação/seleção natural que causaram o processo micro-evolutivo devem continuar agindo na população humana por pelo menos mais 103 anos (1997 a 2100). O mais provável é que ocorram mudanças não-lineares nessa tendência esperada, mas também é provável que a taxa de prevalência continue aumentando. Quando essa taxa alcançar 50% ou mais, a persistência da artéria mediana será considerada como uma estrutura normal do antebraço e da mão. 



(1) Publicação do estudo: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/joa.13224

 

> Aliás, falando em estruturas embrionárias, um impactante estudo publicado em 2019 revelou que numerosos músculos atavísticos dos membros (pernas e braços) - conhecidos de estarem nos membros de vários animais mas geralmente ausentes nos adultos humanos - são de fato formados durante o desenvolvimento embrionário humano e então perdidos previamente ao nascimento. Além disso, os pesquisadores mostraram que alguns desses músculos, como os metacarpais dorsais, desapareceram dos nossos ancestrais vertebrados adultos há mais de 250 milhões de anos, durante a transição evolutiva dos répteis sinapsídeos para os mamíferos. Para mais informações, acesse: Cientistas revelaram vários vestígios evolucionários nos músculos de embriões humanos

Humanos com uma artéria extra no antebraço estão ficando mais comuns: possível evolução Humanos com uma artéria extra no antebraço estão ficando mais comuns: possível evolução Reviewed by Saber Atualizado on outubro 10, 2020 Rating: 5

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