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Estudo trouxe evidência de práticas antidemoníacas na Polônia do século XVII: sepultura de uma mulher "vampira"

Figura 1. Vestígios esqueléticos de uma mulher jovem do século XVII, onde podemos ver uma foice enferrujada sobre sua garganta.


Há evidências, provenientes de diversos períodos históricos e regiões, de sepulturas onde se observaram práticas específicas e atípicas em relação aos indivíduos ali enterrados. Tais sepultamentos são frequentemente classificados como atípicos, não normativos, extraordinários ou desviantes. Em alguns desses casos, observaram-se ações que indicavam medo em relação ao falecido ou falecida. Muitas vezes, utiliza-se a terminologia "vampírico" ou "antivampírico" para descrever esses sepultamentos, embora o próprio termo "vampiro" só tenha se popularizado na Europa por volta do século XVIII. 


Diversos termos foram empregados para designar indivíduos que, após a morte, se tornavam - ou pelo menos acreditava-se que teriam potencial para se tornar - demônios (vampiros). No contexto eslavo, incluem-se termos como upiór, strzyga, wieszczi ou łepi. O uso do termo "vampiro" (e de classificações correlatas) é, frequentemente, subjetivo e de natureza mais genérica, funcionando essencialmente como uma categoria ampla que denota um ser demoníaco para determinada cultura. 


Nesse sentido, uma sepultura "antivampírica" (isto é, antidemoniaca, que incorpora práticas de proteção) pode ser definida como qualquer sepultura na qual se observam ações ritualísticas de enterro que não são típicas de um determinado grupo humano, unidade cultural ou região. Tais ações - no contexto histórico ou contemporâneo - visam eliminar a ameaça que, presumivelmente, a pessoa morta representava para os membros vivos de um determinado grupo. No território da Europa Central e do Sudeste Europeu, têm sido descritos centenas desses sepultamentos "antivampíricos", datados desde o período pós-medieval até a era moderna.


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Em 2022, arqueólogos revelaram uma sepultura atípica do século XVII de uma jovem adulta (sepultura 75) em um cemitério em Pień, na região centro-norte da Polônia. A sepultura, descoberta e posteriormente perturbada, trazia notavelmente a presença simultânea de uma foice - sobre o pescoço do esqueleto - e um cadeado - no dedão (hálux) do pé esquerdo (Fig.2). Esses sinais são indicativos de uma comunidade que estava aterrorizada pelo "retorno" da mulher morta - apelidada de "Zosia" pelos arqueólogos (Fig.5).

  

Figura 2. Sepultura 75 in situ (a, c-d) e em projeção horizontal (b). Sobre o pescoço da mulher sepultada, foi colocada uma grande foice elíptica com a lâmina voltada para a garganta (c), enquanto um cadeado triangular estava suspenso no hálux do pé esquerdo (d). Além desses dois objetos de ferro, observaram-se fragmentos de um adorno de seda, proveniente de um adereço de cabeça, sobre o crânio e próximo à mandíbula. Ref.1

 

Figura 3. Cadeado da sepultura 75: desenhos (a), uma fotografia da face frontal (b) e imagem de raios X (c). Ref.1

 

Figura 4. Foice da sepultura 75: uma fotografia (a), um desenho (b), uma imagem microscópica do fragmento da lâmina (c) e uma seção transversal RL de um fragmento de madeira do cabo da foice (d). Ref.1

 

Figura 5. Reconstrução artística de Zosia com base no esqueleto desenterrado e apresentada originalmente no documentário de 2024 "Field of Vampires". Ref.2

Em um estudo publicado recentemente no periódico Journal of Archaeological Science: Reports (Ref.1), pesquisadores reanalisaram a sepultura 75 através de um extensivo conjunto de investigações arqueológicas e osteológicas, incluindo análise de DNA, radiocarbono e técnicas avançadas de análise físico-química (SEM-EDS, MAXRF e raio-X), visando explorar as circunstâncias de morte da mulher sepultada.


Os resultados das análises osteológicas e genéticas confirmaram que o indivíduo era fêmea (XX) e apontaram que a jovem tinha uma idade de 17 a 19 anos quando morreu e altura de ~1,65 m. Embora a jovem tenha passado a infância na região de Pień, análise do DNA mitocondrial (mtDNA) indicou uma possível ancestralidade materna não local, compatível com uma migrante de segunda geração ou posterior, potencialmente ligada ao sul da Escandinávia. 


A investigação arqueológica dos itens presentes na sepultura apontou que a mulher possuía um alto status social - talvez pertencente à nobreza. Além disso, sua sepultura passou por uma deposição secundária, presumivelmente para reforçar o isolamento do túmulo mediante a colocação de uma foice ao redor do pescoço - junto com o cadeado no dedão do pé. 


Segundo os autores do estudo, tais práticas podem ser descritas como antidemoníacas - visando proteger os vivos de mortos perigosos -, sendo provável que a ocupante da sepultura 75 tenha sido responsabilizada por infortúnios não especificados (como doenças ou fome) que frequentemente assolavam a Comunidade Polaco-Lituana no século XVII. A comunidade provavelmente temia a jovem, assim como seu possível retorno da morte (tanatofobia).

 

"Era incomum haver duas precauções, dois métodos para garantir que aquele esqueleto permanecesse na sepultura - o que indica que o medo de que o corpo voltasse à vida era grande," disse em entrevista à CNN Dariusz Poliński, autor principal do novo estudo e professor do Instituto de Arqueologia da Universidade Nicolau Copérnico em Toruń, Polônia (Ref.2).


O cadeado na sepultura é, entre outras coisas, uma referência à crença no encerramento de um capítulo da vida terrena e no início da vida após a morte. A adição de um cadeado na sepultura poderia ter tornado a comunicação entre os vivos e os mortos mais difícil ou impossível, interrompido ou encerrado uma sequência desfavorável de eventos, ou oferecido proteção contra o falecido. A presença de cadeados em sepulturas também é vista como um recurso para conter epidemias.


Já a presença intencional de uma foice na sepultura garantia que o falecido ali permanecesse e não pudesse prejudicar os vivos, mas também podia servir para proteger o morto de forças malignas. No entanto, um caso em que a foice é posicionada com a lâmina voltada para o pescoço ou a garganta do indivíduo sepultado - como na sepultura 75 - é interpretado inequivocamente como uma medida de precaução contra o risco de o falecido prejudicar os vivos. Acreditava-se que, se o falecido suspeito de ser um espectro (vampiro, łepi) tentasse se levantar, a foice cortaria sua garganta e acabaria por matá-lo definitivamente. Em rituais religiosos, a foice é vista como um meio de proteção contra forças malignas, devido ao fato de ser feita de ferro e possuir uma lâmina afiada.


Além disso, outra potencial medida de proteção antidemoníaca estava presente na sepultura 75. No caso apontado por uma extensa descoloração esverdeada (decorrente de óxido de cobre) no palato da jovem, com concentração próxima à garganta, estendendo-se até a base do crânio, o interior da cavidade nasal e as duas primeiras vértebras cervicais (C1-C2). É possível, portanto, que um objeto grande, feito de ou contendo uma liga de cobre, tenha sido inserido na boca da jovem.


Ainda segundo os pesquisadores, é provável que o local de sepultamento fosse Protestante, dada a ausência total de itens devocionais - como cruzes e medalhas - característicos de sepultamentos Católicos. Naquela época e região, grupos protestantes da Alemanha e dos Países Baixos (principalmente Luteranos e Menonitas) conviviam com a população polonesa, predominantemente católica. Embora cadeados já tenham sido encontrados em cemitérios Judaicos na Polônia, nenhuma outra característica apontou uma sepultura judaica.


Considerando os vários enterros atípicos no local e outras evidências, o cemitério protestante pós-medieval de Pień pode ter servido como local de sepultamento para indivíduos rejeitados pela sociedade - independentemente do status social - que provavelmente inspiravam medo mesmo após a morte.


Nesse último ponto, nenhuma evidência de trauma ou condições patológicas que pudessem explicar a morte da jovem foi encontrada. Também não foram observados sinais de lesões traumáticas antemortem ou perimortem. Devido à ausência de tecidos moles preservados, não foi possível chegar a conclusões sobre a causa da morte.


Mais pesquisas paleopatológicas - já em andamento - serão necessárias para elucidar a causa exata da morte da jovem, que permanece ainda um mistério. Teria sido assassinada pela comunidade da região? Ou morreu de causas naturais?


Leitura recomendada:


REFERÊNCIAS

  1. Poliński et al. (2026). A unique, non-normative burial of a young adult female from a 17th-century cemetery in Pień, north-central Poland. A multidisciplinary approach. Journal of Archaeological Science: Reports, Volume 74. https://doi.org/10.1016/j.jasrep.2026.105967
  2. https://edition.cnn.com/2026/08/21/science/vampire-burial-young-woman-poland

Estudo trouxe evidência de práticas antidemoníacas na Polônia do século XVII: sepultura de uma mulher "vampira" Estudo trouxe evidência de práticas antidemoníacas na Polônia do século XVII: sepultura de uma mulher "vampira" Reviewed by Saber Atualizado on agosto 22, 2026 Rating: 5

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