Nova espécie descrita de aranha usa uma sofisticada armadilha de teia para capturar formigas
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| Figura 1. Aranha-balista (Propostira sp.) esperando uma formiga-verde (Oecophylla smaragdina) morder o "cone" da sua teia e disparar a "armadilha balística". |
Um time internacional de pesquisadores descobriu e descreveu uma notável nova espécie de aranha nas florestas úmidas no norte de Queensland, Austrália. A aranha - descrita em um estudo publicado no periódico Current Biology (Ref.1) e apelidada de "aranha-balista" - constrói uma sofisticada armadilha de teia que usa energia elástica para capturar formigas individuais da espécie Oecopylla smaragdina - popularmente conhecida como "formiga-verde". As capturas individuas e extremamente rápidas protege a aranha de outras formigas-verdes, que são altamente territoriais e agressivas. Os pesquisadores descreveram a armadilha de teia (Fig.1) como "a especialização definitiva".
"É muito incomum uma aranha se alimentar de formigas, porque elas são notoriamente perigosas, e ainda mais bizarro encontrar uma aranha que se alimenta apenas de uma espécie específica de formiga", disse em entrevista o professor Ajay Narendra, da Universidade de Macquarie (Ref.2). "As formigas possuem uma variedade de defesas químicas – incluindo a capacidade de ferror em um número de espécies – e usam sinais de alarme para recrutar rapidamente centenas e até milhares de outras formigas como reforço para superar potenciais predadores."
"Suspeitamos que, durante a fase final de construção, a aranha adiciona um feromônio que atrai especificamente as formigas operárias e induz um ataque agressivo, acionando a armadilha. Este parece ser o único caso em que a teia de uma aranha é projetada para capturar uma única espécie de presa e em que o mecanismo é acionado pela presa, e não pelo predador."
"A armadilha da aranha-balista é bio-engenhada para armazenar energia elástica na seda e liberá-la rapidamente, conferindo-lhe uma incrível densidade de potência instantânea – maior do que qualquer outra catapulta biológica especializada à base de seda. As formigas que ela caça possuem almofadas adesivas nas patas, então a contração do feixe de fios de tensão precisa superar uma força muitas vezes maior que o peso corporal da formiga para levantá-la."
"O mecanismo da armadilha parece ter evoluído como uma forma altamente especializada de permitir que a aranha ‘capture’ presas potencialmente perigosas uma de cada vez e as transporte para uma distância segura, longe de trilhas e formigueiros," completou Narendra.
A espécie descrita pertence ao gênero Propostira (família Theridiidae) e ainda não possui um nome (epíteto específico). De hábitos noturnos, habita árvores localizadas próximas de trilhas de forrageio das formigas-verdes.
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| Figura 2. (A) Durante o período diurno, a aranha-balista (Propostira sp.) descansa sob uma folha. (B) Uma formiga-verde (Oecophylla smaragdina). |
Em árvores ocupadas por essas formigas, a aranha-balista refugia-se durante o dia na parte inferior das folhas e saía do seu refúgio 30 minutos após o pôr do sol. Ao sair do seu refúgio, a aranha inicia uma fase exploratória durante a qual desce por um fio de seda até substratos (ex.: superfície de uma folha) a até 50 cm de distância. Quando pousa num substrato adequado, estabelece um ponto de ancoragem e retorna à teia central lançando um fio de tensão. A repetição deste processo resulta em uma estrutura em forma de leque com 15 a 60 fios de tensão agrupados perto do substrato, onde os fios ficam dispostos numa estrutura em forma de pequeno cone. Na fase final, a estrutura cônica é densamente envolvida com um tipo de seda mais fina. Esse processo é mostrado no vídeo abaixo.
Após a construção da armadilha balística, a aranha então recua para uma posição alguns centímetros acima do cone. Logo após o cone ser envolvido, formigas-verdes são atraídas por ele. Milissegundos após sondar o cone com suas antenas, a formiga exibe comportamento agressivo, elevando o abdômen e mordendo o cone de seda. O comportamento agressivo da formiga é semelhante ao exibido em relação a indivíduos desconhecidos ou intrusos de outros ninhos.
A mordida da formiga desestabiliza o cone e o desprende do substrato em cerca de 42 milissegundos, levando a uma rápida contração das linhas de tensão. Ainda segurando o cone com suas mandíbulas, a formiga acaba sendo rapidamente puxada do substrato e impulsionada para o interior da teia , atingindo distâncias de até ~28 cm do substrato, com acelerações máximas de ~1367 m/s² e velocidades máximas de ~4,36 m/s. A aranha só se move depois que a formiga é içada para longe do substrato. A aranha então sobe na teia e espera até que a formiga ficar completamente enredada antes de se aproximar para envolvê-la em seda.
Nesse sentido, a aranha-balista supera o desafio de isolar formigas-verdes individuais do grupo altamente agressivo dessa espécie ao empregar uma armadilha que catapulta a presa para longe da superfície.
A armadilha balística de teia parece ser a única até o momento conhecida que exibe uma forte preferência de captura por uma única espécie de presa. Outras espécies de formigas testadas pelos pesquisadores não mostraram ser atraídas pelas armadilhas de cone ou exibiam mudanças comportamentais na proximidade dessas armadilhas. Isso sugere que a aranha adiciona feromônios - ainda não identificados - no cone da armadilha para atrair as operárias de formiga-verde e induzir comportamento agressivo nessa espécie.
Leitura recomendada:
REFERÊNCIAS
- Narendra et al. (2026). Ballistic high-powered spider webs overcome dangerous prey defenses. Current Biology, Volume 36, Issue 12, PR691-R692. https://doi.org/10.1016/j.cub.2026.04.066
- https://lighthouse.mq.edu.au/article/2026/june-2026/this-tiny-australian-spider-uses-a-highpowered-web-catapult-to-trap-and-eat-aggressive-ants
- https://entomologytoday.org/oecophylla-smaragdina-aw/
Reviewed by Saber Atualizado
on
junho 23, 2026
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