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Arqueólogos revelam terrível mutilação punitiva de uma mulher na Inglaterra Anglo-Saxã


Em um estudo publicado no periódico Antiquity (1), pesquisadores descreveram a primeira evidência arqueológica de uma mutilação facial intencional (formal) da Inglaterra Anglo-Saxã do século IX, englobando, no mínimo, a remoção do nariz, lábio superior e, possivelmente, escalpamento, em uma jovem mulher. As mutilações são consistentes com punições historicamente documentadas para mulheres (escravas e/ou adúlteras) que cometessem crimes, particularmente associadas a terríveis leis dos Reis Edgar e Cunato para crimes considerados mais graves do que roubo. 


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Existe extensiva evidência para mutilações intencionais e acidentais do crânio humano tanto em antigas quanto em modernas sociedades. Traços arqueológicos de específicas e premeditadas lesões incluem decapitação (seja pré-, peri-, ou pós-mortem), modificação dos dentes e trepanação, enquanto traumas não premeditados podem resultar de acidentes ou violência inter-pessoal (ex.: combates). Esse tipo de evidência cobre um longo período histórico, desde o Egito Dinástico até tempos modernos, com localizações englobando a Ásia, América, África e Europa.


Enquanto que mutilação era comumente aplicada nas extremidades dos membros e na cabeça, o rosto em específico servia como um meio obviamente brutal para marcar certos indivíduos. O rosto humano não é apenas definido pela morfologia dos ossos de suporte, músculos e gordura, como também por tecidos moles como aqueles formando as orelhas, nariz e lábios. Todas essas partes anatômicas servem para tornar cada rosto distinto, facilitando comunicação social e permitindo a expressão de emoções. Porém, evidências arqueológicas de mutilação do rosto é bastante limitada, provavelmente porque geralmente afetava com maior frequência tecidos moles sem deixar óbvios traços no esqueleto.


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No novo estudo, os pesquisadores investigaram um crânio humano exibindo evidência de mutilação facial específica e intencional, recuperado de escavações da década de 1960, em uma região de Oakridge, em Basingtoke, Inglaterra. O crânio foi encontrado isolado, sem vestígios do esqueleto pós-craniano, indicando possível decapitação para exibição da cabeça ou talvez apenas remoção posterior em circunstâncias diversas. Datação via radiocarbono indicou que o crânio pertencia a uma pessoa que viveu há 1173 ± 24 anos, em torno do ano de 847 d.C. (95,4% de confiança). Análise morfológica do crânio indicou um indivíduo jovem, em torno de 15-18 anos de idade. Análise do DNA extraído do crânio mostrou que o indivíduo era do sexo feminino. Análise isotópica (oxigênio, estrôncio, carbono e nitrogênio) dos dentes indicaram que a jovem não era uma habitante local (talvez escrava), mas não foi possível identificar a provável região de origem. 


 

O crânio exibe clara evidência de trauma peri-mortem (danos durante a morte ou quasi-morte) na região facial. Primeiro, existe um corte linear sobre o osso frontal medial esquerdo em um formato de V, orientado obliquamente à direita em relação à frente do crânio. Segundo, o osso trabecular estava exposto na base da abertura nasal, cortando através do osso cortical na frente dos soquetes centrais incisores maxilares. A espinha anterior nasal também estava ausente. A zona trabecular estava cercada pela margem de um osso cortical bem definido, especialmente na base da abertura nasal. As margens laterais inferiores da esquerda e da direita da abertura nasal também estavam truncadas. No geral, parece que houve cortes diretos através da margem nasal do meio até a abertura nasal através da espinha anterior nasal até o próstion (ponto na região mandibular), a partir de cortes com uma faca.


 

Os cortes através dos lábios foram feitos em um ângulo levemente diferente daquele através das margens nasais. Isso reforça que pelo menos dois cortes foram feitos para infligir as lesões, indicando golpes intencionais, e não acidentais, e restritos aos locais das lesões. Existe também um distinto corte na testa indicando possivelmente a remoção do cabelo da vítima e/ou escalpamento, ou, também uma possibilidade, apenas relacionado à remoção do nariz.


Segundo os pesquisadores, existe pouca dúvida de que a vítima morreu durante - ou não muito tempo depois - do traumático evento. As quinas das lesões eram bem definidas, sem sinais de remodelação, o que descartaria sobrevivência mesmo por alguns poucos dias depois dos golpes. Apenas as lesões no nariz seriam suficientes para causar a morte da jovem, com as feridas provavelmente danificando a rede de artérias na parte anterior do nariz. 


Dois plexos de artérias suprem o nariz com sangue. O plexo anterior, conhecido como plexo de Kiesselbach, é responsável pela maioria dos sangramentos de nariz, mas com estes sendo facilmente controlados com a aplicação de pressão. Porém, lesões no plexo posterior (Woodruff) tendem a causar sangramento ao longo da garganta, e só pode ser controlado com uma intervenção médica específica nas estruturas nasais anteriores acima do palato mole - um procedimento improvável de ser conhecido pelos médicos Anglo-Saxões. Nesse sentido, o traumático corte da estrutura nasal teria causado profundo sangramento através do plexo posterior, levando à morte por engasgo - mesmo esta não sendo a intenção da mutilação.


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Em resumo, o crânio da jovem de talvez 18 anos de idade e possivelmente estrangeira, trazia claros sinais de três cortes intencionais: dois responsáveis pela retirada do nariz e do lábio superior, e um possivelmente associado a um escalpamento (parcial ou completo). E essas mutilações podem não ter sido as únicas durante o ato de punição.


FORMA E MOTIVO DA MUTILAÇÃO


A região de Oakridge onde o crânio estava enterrado era um território pertencente ao Estado Anglo-Saxão de Chineham. Apesar da datação via radiocarbono englobar uma data (incerteza) associada à Batalha de Basing (871 d.C.) entre Vikings e Anglo-Saxões (2), o estudo não encontrou nenhuma evidência sugerindo que o crânio analisado estava relacionado a esse evento.



(2) Leitura recomendada: Vikings: A Era Subestimada da Sociedade Nórdica


No período pós-Cristianismo na Inglaterra a partir do século VII d.C., se tornou comum a prática de enterrar certos indivíduos em localizações isoladas distantes de cemitério comunitários 'normais', visando aqueles excomungados e refletindo as noções binárias Cristãs de 'bom' e 'mal'. Aliás, uma cova em similar condição de isolamento datada em 973-974 d.C. do Estado de Crondall, a 20 quilômetros de Oakridge, explicitamente traz registrado: "onde Ælfstan repousa em um enterro pagão [ou excomungado]". Nesse sentido, fica fortemente sugerido que a jovem sofreu algum tipo de punição para marcá-la com um crime hediondo antes de ser enterrada.


Registros escritos Anglo-Saxões trazem uma lista de inúmeras punições por mutilação, incluindo, em alguns casos, suas motivações. A remoção das mãos e dos pés por causa de roubo marca o código de lei do Rei Ine de Wessex (688-725 d.C.). Amputação da mão por roubo, definido dessa vez pela Igreja, aparece no código de lei do Rei Alfredo (871-899 d.C.), enquanto o mesmo código define a castração como punição para o escravo que estupra outro escravo. A segunda lei do Rei Etelstano (924-939 d.C.) define a amputação da mão de indivíduos que produzissem moedas fora dos padrões legais (ex.: menor conteúdo de prata). 


As fontes começam a se tornar mais relevantes para o caso do crânio de Oakridge, no entanto, com o código da terceira lei do Rei Edmundo (921-946 d.C.), o qual define açoite, remoção do escalpo e mutilação do mindinho em combinação como penalidade para escravos ladrões. O código da terceira lei do Rei Edgar (959-975 d.C.) lista a remoção da língua para aqueles que faziam falsas acusações. Em relação aos milagres do Santo Swithun de Winchester, existe registro escrito para uma lei do Rei Edgar para ladrões, onde os transgressores deveriam ser:


"torturados com a remoção dos olhos, ter suas mãos amputadas, suas orelhas removidas, suas narinas abertas e seus pés removidos; e finalmente, com a pele e o cabelo das suas cabeças removidos, eles deveriam ser abandonados nas campos abertos."


As leis dos Reis Eduardo e Gutrum referem-se a mutilações e aleijamento não-específicos de um criminoso. A primeira lei do Rei Etelredo (978-1016 d.C.) definia marcação a fogo para escravos culpados em ordenamento judicial. Seu quarto código fornecia outro exemplo de amputação da mão para a feitura de moedas falsas, assim como o código da segunda lei do Rei Canuto (1016-1035 d.C.), o qual também decretava o corte da língua por falsa acusação, e remoção das mãos ou dos pés para o roubo. De particular relevância, existe uma cláusula no segundo código de Canuto que definia a remoção dos olhos, nariz, orelhas, lábio superior e escalpo para crimes mais graves do que roubo, e uma cláusula 53 que estipulava a remoção das orelhas e do nariz no aso de uma mulher acusada de adultério.


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Nesse sentido, voltando ao crânio de Oakridge, as mutilações associadas indicam que a punição era limitada a escravos, adultério e aqueles cometendo ofensas particularmente hediondas. As evidências indicam esse último caso, e é possível que a jovem - provavelmente uma escrava - teve uma morte mais do que terrível, com seus olhos, nariz, orelhas, lábios e escalpo sendo arrancados, uma tradição punitiva que aparentemente se arrastou até o reinado de Canuto. Para piorar, em meio à insuportável dor, a vítima da punição parece ter morrido em agonizante sufocamento com o próprio sangue.


MUTILAÇÃO DO NARIZ


Mutilação ao longo da história não pretendia matar, mas humilhar ou incapacitar em circunstâncias onde o crime não estava associado com uma pena de morte. Mutilação pode envolver a amputação de um membro ou cortes de partes do rosto, as orelhas ou o nariz. Nesse último caso, a vítima literalmente 'perdia a face'. Em algumas culturas, mutilação do nariz era justamente reservada a mulheres, à medida que tal ato destruía a beleza. Aliás, existia inclusive reportes hagiográficos de auto-mutilação do nariz por mulheres - geralmente por freiras - como meio de prevenir agressões sexuais por invasores.


O nariz por si só é particularmente significante, já que é a característica mais proeminente do rosto. Quando o nariz é deliberadamente mutilado, ou quando dificuldades sociais emergem para pessoas afetadas por doenças como leishmaniose, tumores e outras condições de podem modificar ou destruir a aparência normal do nariz, conceitos de desumanização ou punição divina pode ser invocada. A importância do nariz para os rostos humanos é refletida na prática há muito tempo estabelecida de fisicamente removê-lo de estátuas de pessoas não mais suportadas pela população ou em poder.


(1) Publicação do estudo: https://www.cambridge.org/core/journals/antiquity/article/summary-justice-or-the-kings-will-the-first-case-of-formal-facial-mutilation-from-anglosaxon-england/7096A6F0E7F35C2B3C362E4A0542ED76

Arqueólogos revelam terrível mutilação punitiva de uma mulher na Inglaterra Anglo-Saxã Arqueólogos revelam terrível mutilação punitiva de uma mulher na Inglaterra Anglo-Saxã Reviewed by Saber Atualizado on novembro 28, 2020 Rating: 5

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