Maioria dos homens não exibem masculinidade tóxica, aponta estudo conduzido na Nova Zelândia
O termo "masculinidade tóxica" é controverso tanto no meio popular quanto no meio acadêmico. Cunhado na década de 1980, o termo inicialmente expressava a ideia de que alguns dos traços que várias sociedades consideram esteriótipos de masculinidade, como dominância e agressão, podem ter impactos sociais muito deletérios. Mas essa "toxicidade" está amplamente disseminada entre os homens em geral como comumente sugerido?
Um estudo conduzido na Nova Zelândia e publicado no periódico Psychology of Men & Masculinities (Ref.1) explorou essa questão e encontrou que apenas uma pequena porcentagem de homens analisados caíam na pior categoria de toxicidade hostil e menos de 11% do total exibiam toxicidade. Além disso, os autores do estudo encontraram que o desejo de se sentir "mais masculino" ou "macho" não é necessariamente um indicativo de que a pessoa possui uma visão ideológica prejudicial.
"Esses resultados não são uma surpresa," disse em entrevista o psicólogo Steven Sanders, pesquisador na Universidade do Estado de Oregon, EUA, comentando sobre o estudo (Ref.2). "Na média, homens não são monstros."
Inicialmente, a expressão "masculinidade tóxica" foi concebida para enfatizar a "parte da psique masculina que é abusiva". Na era pós-#MeToo - um movimento global contra o abuso e assédio sexual praticado por homens contra mulheres iniciado em 2006 e popularizado em 2017 - o termo expandiu-se para abranger uma ampla gama de atitudes problemáticas e comportamentos estereotipados em homens, incluindo a misoginia grosseira de Donald Trump, sérias ameaças às mulheres decorrentes da cultura do estupro e desafios aos direitos reprodutivos das mulheres. A masculinidade tóxica também tem sido usada para descrever comportamentos mais benignos, porém enraizados de forma deletéria na sociedade, como "mansplaining", negligência nas tarefas domésticas e a incapacidade de apoiar causas feministas. O termo mansplaining faz referência a fenômeno onde homens subestimam como regra a capacidade intelectual de uma mulher.
Nesse sentido, existem críticas dentro e fora do meio acadêmico em relação ao conceito de masculinidade tóxica, devido à falta de uma clara definição para seu significado e ao excesso do seu uso. Isso inclui o potencial risco de caracterizar todos os homens - ou a identidade de gênero masculina - como tóxica.
A dependência excessiva em um conceito indefinido, mas universalmente condenado, de masculinidade tóxica é de especial preocupação quando consideramos que muitos homens, especialmente jovens e meninos, enfrentam dificuldade cada vez maior em diversas áreas da saúde e do bem-estar. Em comparação com as mulheres, os homens correm maior risco de doenças crônicas graves e morte, bem como de problemas de saúde mental, como depressão e transtornos por uso de substâncias.
Por outro lado, ideias rígidas e extremas tradicionalmente associados à masculinidade tóxica podem ser também muito deletérios para a saúde física e mental da própria população masculina. "Se você é homem e acredita que não consegue agir de forma feminina de jeito nenhum - ser vulnerável, expressar emoções - você vai ter problemas", disse em entrevista o psicólogo Ryon McDermott, pesquisador na Universidade do Alabama do Sul, EUA (Ref.2). "Esses homens recorrem ao álcool, a outras substâncias e até mesmo apresentam um risco maior de suicídio."
Nesse contexto, o novo estudo - conduzido por três pesquisadores da Universidade de Auckland, Nova Zelândia, e um pesquisador da Universidade de Queensland, Austrália - explorou a masculinidade tóxica como um constructo multidimensional e investigou como esse conceito pode se manifestar em um conjunto de crenças e traços. Essa investigação focou em resultados prévios do Estudo de Atitudes e Valores da Nova Zelândia de 2018-19, uma pesquisa abrangente com questionário submetido a 50 mil pessoas. Mais de 15 mil participantes se identificaram como homens heterossexuais e responderam a perguntas relevantes como:
- "ser mulher/homem é uma parte importante de como me vejo?"
- e "grupos inferiores devem permanecer em seus devidos lugares?"
Além disso, o estudo levou em conta 8 indicadores focais de toxicidade masculina:
- Centralidade da Identidade de Gênero, que mede a importância de ser um homem para autorreconhecimento. A masculinidade tóxica incentiva os homens a adotarem um conjunto fixo de expectativas, comportamentos e percepções do que é considerado "viril", com uma adesão excessivamente rígida às normas masculinas e uma aversão a práticas estereotipicamente femininas.
- Preconceito Sexual, que faz referência a atitudes negativas contra indivíduos com base na orientação sexual desses últimos, assim como negatividade contra comportamentos e desejos homossexuais.
- Desagradabilidade; a agradabilidade é um conjunto relativamente estável de características que sustentam relações amistosas com os outros, enquanto a desagradabilidade (ou seja, baixa agradabilidade) promove o oposto - potencialmente fomentando maior agressividade.
- Narcisismo, um traço de personalidade caracterizado por um senso exagerado de autoimportância e direito a tratamento especial - potencialmente fomentando superioridade e violência masculinas.
- Sexismo Hostil, que faz referência a atitudes abertamente negativas ou misóginas em relação a meninas ou mulheres, que surgem do paternalismo, da diferenciação de gênero e da intimidade heterossexual. Por exemplo, a crença de que mulheres buscam ganhar poder ao controlar os homens.
- Sexismo Benevolente; em contraste com a natureza abertamente punitiva do sexismo hostil, o sexismo benevolente é um conjunto de atitudes inter-relacionadas em relação às mulheres que são subjetivamente positivas em tom, mas que, no entanto, as veem de forma estereotipada e em papéis restritos. Por exemplo, a ideia de que mulheres precisam ser sempre protegidas ou auxiliadas por homens em contextos e tarefas diversas porque são muito frágeis. Notavelmente, as ameaças à masculinidade aumentam o sexismo benevolente, sugerindo que se trata de uma resposta defensiva usada para proteger o status dos homens.
- Oposição à Prevenção de Violência Doméstica, incluindo persistente tendência de culpabilização das vítimas e normalização da violência por parceiros íntimos.
- Orientação da Dominância Social, que é uma medida da preferência por desigualdades entre os grupos. Em termos de masculinidade tóxica, seria a tendência de considerar homens como socialmente mais importantes do que mulheres, independentemente de outros fatores socioeconômicos e culturais.
Voltando ao estudo, uma análise estatística conduzida pelos pesquisadores mostrou que os homens heterossexuais na Nova Zelândia caem em 5 perfis relativos ao conceito de masculinidade tóxica.
O perfil mais representativo (35,4%), Atóxicos, obteve baixa pontuação em todas as medidas principais dos indicadores focais, enquanto outros dois perfis - Moderado LGBT-tolerante e Moderado Anti-LGBT (totalizando 53,8%) - expressaram apoio baixo a moderado em todos os indicadores. Os dois perfis restantes refletiram formas distintas de masculinidade problemática, marcadas por formas contrastantes de sexismo: Tóxicos Benevolentes (7,6%) e Tóxicos Hostis (3,2%). Os Benevolentes Tóxicos pontuaram alto em sexismo mas não em hostilidade.
Notavelmente, a centralidade da identidade de gênero foi apenas um indicador pouco informativo de masculinidade problemática. Embora os homens do grupo hostil e tóxico tendessem a relatar que o gênero masculino era importante para eles, o mesmo ocorreu com muitos homens das outras categorias.
No geral, a maioria dos homens analisados não mostraram exibir masculinidade tóxica.
A probabilidade do homem exibir um perfil tóxico hostil mostrou ser maior entre aqueles que eram mais velhos, solteiros, desempregados, religiosos ou pertencentes a um grupo étnico minoritário, bem como entre aqueles com altos níveis de conservadorismo político, privação econômica ou desregulação emocional, ou que tinham um baixo nível de escolaridade.
Os resultados do estudo desafiam a noção de que a masculinidade é inerentemente tóxica e corroboram a ideia de que a identidade masculina pode ser positiva e protetora, em vez de tipicamente tóxica. Apoiam também trabalhos empíricos prévios que indicam que os homens preferem formas menos prejudiciais de masculinidade, como aquela dos homens latino-americanos que adotam o caballerismo, uma forma de masculinidade que enfatiza a cavalheirismo, o foco na família e o respeito.
O estudo, porém, possui limitações importantes, em especial o fato dos dados investigados representarem autorrelatos dos participantes e se limitarem à população de um único país.
Leitura recomendada:
REFERÊNCIAS
- Cone et al. (2026). Are men toxic? A person-centered investigation into the prevalence of different types of masculinity in a large sample of New Zealand men.Psychology of Men & Masculinities, 27(1), 106–123. https://doi.org/10.1037/men0000547
- https://www.nature.com/articles/d41586-026-00144-4
Reviewed by Saber Atualizado
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janeiro 24, 2026
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