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Estudo identifica sinais de alerta que podem apontar iminente violência doméstica contra mulheres

 
A violência provocada por parceiro íntimo (VPI) é reconhecida mundialmente como um problema de saúde pública, com repercussão familiar e econômica. A VPI é definida como o comportamento dentro de uma relação íntima que provoca danos físicos, sexuais ou psicológicos, incluindo atos de agressão física, coerção sexual, abusos psicológicos e comportamentos intimidadores. Homens e mulheres podem ser vítimas dessa forma de violência, mas mulheres, de longe, são as mais afetadas e vulneráveis nesse contexto. Porém, fatores predizendo abuso no ambiente doméstico - ou seja, sinais de alerta antes que a VPI ocorra - têm sido pouco explorados ou suportados por evidência científica. Nesse sentido, um estudo recentemente publicado no periódico  Social Psychological and Personality Science (Ref.1) conseguiu identificar vários sinais de alerta que precedem e predizem episódios de VPPI.


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"Apesar de mais trabalhos serem necessários para um completo entendimento da associação entre sinais de alerta e abuso, esses sinais podem eventualmente ser usados em intervenções para ajudar as pessoas a aprender como evitar relacionamentos abusivos ou dar suporte para pessoas amadas que possam estar sob risco de abuso," disse em entrevista a autora principal do estudo, Nicolyn Charlot, da Universidade de Western, Canadá (Ref.2).


VIOLÊNCIA POR PARCEIRO ÍNTIMO


Uma sociedade que funciona sob rígidas normas patriarcais influencia na perpetração da violência contra a mulher. Há uma padronização de papéis que tem de ser seguido, sugerindo que o homem é a voz máxima no lar, e, diante dessa autoridade que lhe foi conferida pela sociedade, acaba muitas vezes subjugando a mulher e entendendo que para que essa seja obediente, ela precisa ser tolhida e anulada. Estima-se que uma em cada três mulheres (30%) no mundo sofra alguma forma de violência por motivos e contextos diversos (1). E a violência por parceiro íntimo (VPI) é a mais comum forma de violência contra a mulher. Cerca de 80% das vítimas de homicídio por um parceiro íntimo (sexo feminino ou masculino) são mulheres (Ref.3).


(1) Leitura recomendada:


De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), são fatores de risco para a ocorrência da VPI: juventude; baixo nível de escolaridade; ser separada ou divorciada; ter sido exposta a maus-tratos na infância; violência entre os pais; uso nocivo do álcool; uso ilícito de drogas de abuso em geral; e aceitação da violência. O pico de ocorrência da VPI ocorre durante os anos reprodutivos da mulher, tanto em países desenvolvidos quanto em países em desenvolvimento. Dados sugerem que aproximadamente 18% das mulheres ao redor do mundo já sofreram violência física ou sexual pelo companheiro. Aqui no Brasil, entre 14 e 17% reportam ter sofrido VPI física e/ou sexual (Ref.5). Mas devido à própria natureza da violência sexual e da violência praticada por parceiro íntimo, a ocorrência e os impactos causados são subestimados.


Em estudo observacional publicado em 2021, pesquisadores analisaram 343 mulheres atendidas no Sistema Único de Saúde na cidade de Cajazeiras (Paraíba), região no Nordeste do Brasil, todas vítimas de VPI (Ref.6). As vítimas tinham, em média, 20,3 anos de idade, e 53,2% eram casadas. Houve prevalência de 52,9% de violência psicológica, 30,5% de violência física e 12,3% de violência sexual. As participantes indicaram como disparadores de violência a bebida alcoólica (67%) e o ciúme (60,8%). Os principais abusos psicológicos foram insultos e humilhação; os físicos foram empurrões e tapas, e os sexuais foram relação sexual contra a vontade da mulher e por medo do parceiro. Uma parcela das participantes justificou a violência sofrida com a infidelidade da própria mulher, a recusa em manter relações sexuais e a desobediência ao marido.


Ainda que a violência psicológica não deixe marcas físicas, ela é igualmente negativa e prejudicial para a saúde da mulher. Dentre os tipos de violência psicológica, o insulto e a intimidação são compreendidos como as formas de violência que mais causam prejuízo emocional e diminuição da autoestima, pois intencionam controlar as ações, os comportamentos, as crenças e as tomadas de decisões.


Nesse mesmo caminho, a VPI está também associada com um significativo aumento no risco de transtorno depressivo maior e de aborto materno (espontâneo ou não) (Ref.7).


Um estudo publicado no periódico Injury Prevention (Ref.8), analisando quase 23 mil casos de anoxia (privação de oxigênio) em ataques violentos reportados nos departamentos de emergência dos EUA (2005-2019), encontrou que >40% deles foram causados por VPI. Nos casos envolvendo lesões e contusões no pescoço, >21% e ~32% do total, respectivamente, haviam sido causadas por VPI. Em outras palavras, violência via estrangulação está fortemente associada com VPI e representa um sério risco de morte e de severas consequências psicológicas para as vítimas.


FUGIR NÃO É FÁCIL


"E por que você continuava com ele?" é uma questão frequentemente ouvida e reflete uma deletéria falta de compreensão do público em geral sobre vítimas de abuso (2). Especialistas já identificaram várias razões do porquê as pessoas não deixam seus abusadores, incluindo falta de meios econômicos de suporte, preocupação pelos filhos, e falta de suporte social. Crucialmente, sobreviventes estão frequentemente investidos em seus relacionamentos a partir do ponto que violência emerge. Mulheres são mais prováveis de retornar para seus abusadores caso estejam mais comprometidas no relacionamento.


(2) Aliás, leitura complementar:


Com base na teoria da interdependência, o modelo de investimento afirma que satisfação no relacionamento, qualidade de alternativas (ex.: outros parceiros, estado civil), e investimentos (ex.: crianças, memórias compartilhadas) contribuem para o comprometimento das pessoas às suas relações amorosas e afetivas. Esse modelo ajuda a explicar por que pessoas persistem em relacionamentos tóxicos: pode haver ausência de alternativas ou muitos recursos investidos. Apesar da VPI reduzir o nível de satisfação no relacionamento, várias das barreiras acima descritas podem ser consideradas investimentos (ex.: filhos) ou falta de alternativas (ex.: ausência de suporte social), forçando pessoas insatisfeitas ou violentadas a permanecerem com seus abusadores.


Nesse sentido, se torna essencial ajudar as pessoas - especialmente mulheres - a evitarem investir em relacionamentos muito antes do ponto de início da violência. Isso pode ser feito através da identificação de sinais de alerta no início da relação.


NOVO ESTUDO


No novo estudo, pesquisadores da Universidade de Western, liderados pela Dra. Charlot, investigaram potenciais sinais de alerta apontando violência futura por parceiro íntimo. Para isso, eles apresentaram a 147 participantes uma lista com 200 pensamentos, sentimentos e comportamentos abusivos e não-abusivos baseados em uma revisão da literatura acadêmica. Participantes indicaram o quão frequentemente cada item tinha ocorrido desde que começaram a se relacionar com uma pessoa. Em uma segunda análise, com 355 participantes, os pesquisadores identificaram sinais de alerta que prospectivamente prediziam violência no relacionamento 6 meses depois.


Somados os resultados das duas etapas do estudo, os pesquisadores identificaram 7 fortes sinais de alerta associados com futura VPI (particularmente de homens contra mulheres): 


- "Meu parceiro agiu de forma arrogante ou superior."

- "Meu parceiro e eu discordamos sobre algo sexual."

- "Meu parceiro e eu tivemos sexo, apesar de eu não estar disposta a fazê-lo."

- "Meu parceiro criou uma situação desconfortável em público."

- "Meu parceiro ignorou meu raciocínio ou lógica porque tal ideia não concordava com as ideias dele."

- "Meu parceiro reagiu negativamente quando eu disse algo que ele não queria."

- "Meu parceiro se ofendeu ao ser questionado sobre como ele me tratava."


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Importante: Os sinais de alerta listados não estão em ordem de emergência e nem todos são necessários para indicar futura violência. Além disso, essa lista não é definitiva.

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Por exemplo, o sinal de alerta "Meu parceiro agiu de forma arrogante" é consistente com teorias de personalidade de violência argumentando que abusadores estão associados com certos traços de personalidade (ex.: narcisismo). Vários dos sinais de alerta identificados no estudo estavam associados com arrogância, controle [parceiro controlador] e imaturidade emocional. Entre outros sinais identificados no estudo, mas com menor força de preditibilidade para VPI, estavam "Meu parceiro tentou me mudar", "Meu parceiro não admitia quando estava errado", "Meu parceiro me evitava", "Meu parceiro ameaçava me abandonar", e "Meu parceiro me comparava a outras pessoas".


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Segundo os pesquisadores, caso a pessoa note apenas alguns desses sinais de alerta no relacionamento, não é preciso automaticamente terminar a relação, exceto se ela queira terminá-la. Pode valer a pena desacelerar as coisas um pouco antes de fazer grandes investimentos no relacionamento. Talvez o parceiro possa também se beneficiar de terapia ou aconselhamento de casal. 


Em entrevista, Dra. Charlot também reforçou (Ref.9): "A vítima nunca deve ser culpada pelo abuso. Esses sinais de alerta servem para informar as pessoas e ajudá-las, mas não devem ser usados para alocar culpa. E ninguém deve ser responsabilizado por ser vítima de abuso, mesmo se a vítima tenha notado sinais de alerta e não feito nada."


REFERÊNCIAS

  1. Charlot et al. (2023). The Predictive Validity of Intimate Partner Violence Warning Signs. Social Psychological and Personality Science. https://doi.org/10.1177/19485506231209076 
  2. https://www.eurekalert.org/news-releases/1010431
  3. https://www.un.org/en/desa/world%E2%80%99s-women-2020-intimate-partner-violence-most-common-form-violence-against-women
  4. Rosa et al. (2018). Violência provocada pelo parceiro íntimo entre usuárias da Atenção Primária à Saúde: prevalência e fatores associados. Saúde em Debae, 42. https://doi.org/10.1590/0103-11042018S405
  5. Valenzuela et al. (2022). Violência por parceiro intimo e resiliência em mulheres da Amazônia ocidental brasileira. Acta Paulista de Enfermagem, 35. https://doi.org/10.37689/acta-ape/2022AO0199345
  6. Formiga et al. (2021). Violência cometida pelo parceiro íntimo: estudo observacional com mulheres atendidas no Sistema Único de Saúde. Einstein (São Paulo), 19. https://doi.org/10.31744/einstein_journal/2021AO6584
  7. Spencer et al. (2023). Health effects associated with exposure to intimate partner violence against women and childhood sexual abuse: a Burden of Proof study. Nature Medicine 29, 3243–3258. https://doi.org/10.1038/s41591-023-02629-5
  8. Khurana et al. (2023). Assault-related anoxia and neck injuries in US emergency departments. Injury Prevention. https://doi.org/10.1136/ip-2023-045107
  9. https://edition.cnn.com/2023/12/12/health/early-signs-of-intimate-partner-violence-wellness/index.html
Estudo identifica sinais de alerta que podem apontar iminente violência doméstica contra mulheres Estudo identifica sinais de alerta que podem apontar iminente violência doméstica contra mulheres Reviewed by Saber Atualizado on dezembro 31, 2023 Rating: 5

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