Estudos trazem evidência de pensamento racional em chimpanzés e de capacidade imaginativa em bonobos
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| Figura 1. Bonobo Kanzi, nesta foto tirada em 2016. Infelizmente, Kanzi morreu em 2025, aos 44 anos de idade. |
Um estudo experimental publicado recentemente na Science (Ref.1) trouxe evidência de que os chimpanzés (Pan troglodytes) conseguem revisar racionalmente suas crenças quando são apresentados a novas informações. Já um estudo publicado ontem no mesmo periódico (Ref.2) apontou que bonobos (Pan paniscus) são capazes de identificar objetos imaginados e engajar em situações fingidas. Essas duas capacidades cognitivas eram até o momento descritas ou comprovadas apenas na nossa espécie (Homo sapiens).
Pensamento Racional
Assim como humanos, chimpanzés podem mudar de ideia dependendo do conjunto de evidências apresentados.
Esse é um traço crítico do pensamento racional.
Isso foi demonstrado em experimentos onde chimpanzés foram apresentados a caixas contendo ou não alimento. Os chimpanzés tinham que escolher quais caixas eram prováveis de conter a recompensa alimentar.
Pistas visuais e auditivas foram oferecidas em diferentes sequências - e com diferentes forças de evidência - de quais caixas possuíam a recompensa, como mostrado neste vídeo.
Os chimpanzés analisados frequentemente mudavam a escolha inicial em resposta a evidências mais fortes.
Além do esquema experimental elaborado e diverso, modelos computacionais - analisando os dados gerados no experimento - também confirmaram racionalização genuína por parte dos primatas e não um simples instinto.
Os resultados do estudo desafiam a visão tradicional de que racionalidade - a habilidade de formar e revisar crenças baseadas em evidência - é exclusiva de humanos.
Isso aponta que a racionalidade possui uma origem evolucionária bem mais antiga do que o pensado entre os hominídeos.
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| Figura 2. Chimpanzé usando um martelo esférico para abrir uma noz no buraco de uma bigorna e exibindo um uso sofisticado de ferramenta. |
"A diferença entre humanos e chimpanzés não é um salto. É mais como um contínuo," disse em entrevista a Dra. Emily M. Sanford, uma das autoras do estudo.
Brincando de Faz-de-conta
Atividades típicas da infância, como festas de chá e lutas de espadas com gravetos, demonstram a capacidade humana de gerar representações secundárias, condições que sabemos não serem "reais", mas com as quais, mesmo assim, interagimos. Em humanos, crianças a partir dos 2 anos de idade já conseguem engajar em cenários imaginativos ou "de mentirinha".
Mas outros animais também exibem essa capacidade imaginativa?
Para responder essa questão, pesquisadores conduziram três tipos de experimentos com o famoso - e agora falecido - bonobo Kanzi. Esse bonobo era capaz de entender centenas de palavras em inglês e de usar símbolos conhecidos como lexigramas - criados na década de 1970 para facilitar comunicação entre humanos e outros primatas. Antes dos experimentos, Kanzi aprendeu a escolher um copo transparente enchido com suco ao invés de um copo vazio sem alimento.
| Figura 3. Kanzi, aos 43 anos de idade. |
Os experimentos criados para testar o bonobo eram muito semelhantes a uma festa do chá infantil. Em cada teste, um experimentador e Kanzi ficavam frente a frente, como em uma festa do chá, em uma mesa posta com jarras e copos vazios ou tigelas e potes.
Na primeira tarefa, havia dois copos transparentes vazios sobre a mesa, ao lado de uma jarra transparente vazia. O experimentador inclinava a jarra para "despejar" um pouco de suco imaginário em cada copo e, em seguida, fingia despejar o suco de uma das xícaras, sacudindo-a um pouco para garantir que o suco saísse. Depois, perguntava a Kanzi: "Onde está o suco?".
Kanzi apontava para o copo correto, que na maioria das vezes ainda continha suco imaginário, mesmo quando o experimentador mudava a posição do copo com o suco imaginário.
Para o caso de Kanzi pensar que havia suco de verdade no copo, mesmo sem vê-lo, os pesquisadores realizaram um segundo tipo de experimento. Desta vez, havia um copo com suco de verdade ao lado do copo com o suco falso. Quando perguntado o que Kanzi queria, ele apontava para o suco de verdade quase sempre. Ou seja, sabia que no outro havia apenas suco imaginário.
Um terceiro tipo de experimento repetiu a mesma ideia, só que com uvas. Um dos experimentadores fingia pegar uma uva de um recipiente vazio e a colocava dentro de um entre dois potes. Em seguida, fingiam esvaziar um dos recipientes e perguntavam a Kanzi: "Onde está a uva?". Kanzi novamente indicava a localização do objeto imaginário.
O vídeo abaixo mostra os experimentos conduzidos no estudo.
O estudo reforça a evidência de que alguns animais, incluindo os parentes mais próximos dos humanos, podem conceber objetos, eventos e indivíduos que não estão "no aqui e agora". Isso sugere que essa capacidade está enraizada na nossa linhagem evolucionária desde pelo menos 6-9 milhões de anos. E também corrobora observações prévias envolvendo bonobos e chimpanzés já sugestivas de pensamento imaginativo, incluindo brincadeiras de "faz de conta" (Ref.3-4).
Por exemplo, um bonobo fêmea em cativeiro chamado Panbanisha foi observado fazendo um movimento de arrancar frutos em uma imagem de mirtilos e, em seguida, levando os dedos à boca, como se fosse comer a fruta imaginária. Existem também registros de chimpanzés selvagens carregando toras de madeira como se fossem bonecas e similar a mães carregando filhotes, especialmente fêmeas jovens. Em cativeiro, chimpanzés já foram observados carregando blocos imaginários ao longo do chão após brincar com reais blocos de madeira.
"A imaginação tem sido vista há muito tempo como um elemento crucial do que significa ser humano, mas a ideia de que ela pode não ser exclusiva da nossa espécie é realmente revolucionária," disse em entrevista Christopher Krupenye, um dos autores do estudo e professor assistente no Departamento de Psicologia e Ciência do Cérebro da Universidade Johns Hopkins, EUA.
REFERÊNCIAS
- Schleihauf et al. (2025). Chimpanzees rationally revise their beliefs. Science, Vol. 390, No. 6772. https://doi.org/10.1126/science.adq5229
- Bastos et al. (2026). Evidence for representation of pretend objects by Kanzi, a language-trained bonobo. Science, Vol. 391, Issue 6785, pp. 583-586. https://doi.org/10.1126/science.adz0743
- https://www.nature.com/articles/d41586-026-00357-7
- https://hub.jhu.edu/2026/02/05/apes-share-human-ability-to-imagine/
Reviewed by Saber Atualizado
on
fevereiro 07, 2026
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