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Poderoso líder Ibérico da Idade do Cobre não era um homem, era uma mulher

Figura 1. Recriação artística da "Dama de Marfim". Ref.1

 
Em 2008, arqueólogos descobriram um túmulo de 5 mil anos de idade com presas de marfim, âmbar, cascas de ovos de avestruzes e uma adaga de cristal, na cidade de Valencina, no sudoeste da Espanha. A luxuosa ornamentação e a rara ocupação única do túmulo fortemente sugeriram um líder de elite - provavelmente a pessoa com o maior status social em toda a Ibéria na época -, e, nesse sentido, esse indivíduo foi apelidado de "Homem de Marfim". Porém, um estudo publicado esta semana na Scientific Report (Ref.1), usando avançada análise genética e proteica, revelou que esse indivíduo não era do sexo masculino e, sim, do sexo feminino - uma "Dama de Marfim".


"E essa foi uma líder que liderou através de exemplo," disse o coautor do estudo e arqueólogo na Universidade de Sevilha, Dr. Leonardo García Sanjuán, em entrevista à Science (Ref.2). "Ela não teve uma vida de conforto ou luxuosa."


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Valencina (Sevilha, Espanha) é um "mega-sítio" da Idade do Cobre se expandindo sobre ~450 hectares, exibindo sofisticadas câmaras megalíticas e massivos canais, e associado com rica cultura material (ex.: artefatos ritualísticos finamente manufaturados a partir de matéria-prima exótica como marfim, pedras cristalinas, âmbar, sílex e cascas de ovos de avestruzes). Além disso, o local possui a maior coleção de ossos humanos para quaisquer locais associados à Idade do Cobre Ibérica (c. 3200–2200 a.C.) até o momento conhecidos, e era marcado pela promoção de trabalho comunal (como a construção e a manutenção de monumentos), agricultura, comércio, alto fluxo de informações e festas. Em outras palavras, é o local mais relevante desse período já descrito.


Figura 2. Localização de Valencina, na Península Ibérica (região no sudoeste Europeu formada em maior parte por territórios de Portugal e da Espanha). Ref.1

Apesar das práticas funerárias Ibéricas da Idade do Cobre serem amplamente caracterizadas como túmulos coletivos (vários corpos enterrados juntos), um túmulo especial no sítio de Valencina traz um único indivíduo (Fig.3). Não apenas isso, esse túmulo é notável por várias razões. O indivíduo ali enterrado foi primeiro identificado como um provável homem [sexo masculino] com idade entre 17 e 25 anos no momento da morte, com base em análise antropológica padrão. Isótopos de estrôncio mostraram que o indivíduo tinha origem local, enquanto ao mesmo tempo elevados níveis de mercúrio nos ossos revelaram intensa exposição ante mortem (antecedente à morte) ao mineral cinábrio (sulfeto de mercúrio II; HgS). No túmulo, o indivíduo estava acompanhado por um conjunto de bens prestigiosos que incluíam um grande prato de cerâmica (no qual traços químicos de vinho e de Cannabis foram encontrados), uma pequena sovela de cobre e múltiplos objetos de marfim e de sílex, e uma presa de marfim inteira com massa de 1,8 kg - essa última pertencente a um elefante Africano e sem paralelo na Europa Ocidental (Fig.4). 


Figura 3. Níveis superior e inferior do túmulo, ambos trazendo abundantes e luxuosas mercadorias e oferendas. Ref.1

Figura 4. Principais artefatos depositados ao redor do corpo, no nível inferior do túmulo. (a) adaga de sílex com pomo de âmbar; (b) vaso de marfim; (c) pente de marfim; (d) prato cerâmico; (e) pó de cinábrio; (f) lâminas de sílex; (g) presa de elefante;  Ref.1

Figura 5. Principais artefatos no nível superior do túmulo, depositados como oferendas. (a) lâminas de sílex; (b) presas decoradas; (c) adaga de pedra cristalina com punho e estojo de marfim; (d) pratos cerâmicos; (e) cascas de ovos de avestruzes. Ref.1 


Como observado na Fig.3, o túmulo possuía também uma parte superior onde oferendas foram adicionadas posteriormente ao enterro, as quais incluíam vários grandes pratos de cerâmica e vários objetos de marfim. Entre os artefatos de marfim, havia uma bela adaga com uma lâmina feita de pedra cristalina e um cabo de marfim decorado com 90 contas [pérolas] perfuradas (Fig.5).


A quantidade e a qualidade dos artefatos associados ao túmulo implicam que o jovem indivíduo ali presente era a figura socialmente mais proeminente em toda a Idade do Cobre Pré-Cultura do Vaso Campaniforme na Península Ibérica (c. 3200 a 2500 a.C.). Além disso, o fato de que nenhum dos túmulos de bebês encontrados em Valencina possuem artefatos sugerem que, entre as comunidade que viviam ou frequentavam esse local, status social não era definido por nascimento (ausência de significativa herança material), contrário ao que aconteceria mais tarde no início da Idade do Bronze. Em outras palavras, o indivíduo no túmulo parece ter ganhado alta posição social através de mérito e conquistas pessoais. 


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No novo estudo, pesquisadores usaram análise peptídica para testar a presença da proteína sexualmente dimórfica amelogenina (constituinte do esmalte dentário) no dente do indivíduo (1). Dúvida sobre o sexo do espécime em questão é antiga, em grande parte devido ao DNA muito fragmentado pelo clima quente em Sevilha associado aos vestígios ósseos - ou seja, tornando difícil identificar presença ou ausência do cromossomo Y. Análise de um molar e de um incisor do indivíduo detectaram a presença do gene AMELX - o qual produz amelogenina - exclusivamente associado ao cromossomo X, confirmando que o indivíduo era do sexo feminino e não masculino. 


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(1) Amelogeninas constituem cerca de 90% da matriz proteica do esmalte dentário e atuam de forma crítica para a biomineralização dessa estrutura. O gene da amelogenina humana está localizado na posição Xp22.1-p22.3 do cromossomo X e na posição Yp11.2 do cromossomo Y, com 90% dos transcritos expressos no cromossomo X e o restante no cromossomo Y. Como as cópias X e Y do gene não passam como recombinação homóloga, isso torna a amelogenina como o marcador genético correspondente preferido para a determinação sexual na ciência forense moderna. Ref.3-4

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O achado levanta importantes questões sobre a natureza política na Idade do Cobre Ibérica e o papel das mulheres [sexo feminino] dentro do sistema sócio-político associado. Uma mulher parece ter sido a pessoa mais poderosa desse crucial período - quando processos estavam levando a sociedades mais hierárquicas ao longo da Europa Ocidental - e nenhuma figura do sexo masculino conhecida é comparável ao seu status na Ibéria. Aliás, as únicas pessoas enterradas com comparável pompa e riqueza nesse período eram também do sexo feminino, enterradas na Câmara Grande de Montelírio, uma tumba megalítica próxima do túmulo da Dama de Marfim e contendo pelo menos 15 mulheres. A maioria das mulheres em Montelírio também exibiam altos níveis de mercúrio nos ossos, sugerindo intensa exposição pre-mortem a cinábrio, e uma delas possuía seis dedos em cada pé (polidactilia), provavelmente marcando-a como uma pessoa especial durante sua vida (algo comum em numerosas culturas ao redor do mundo).


Aliás, tanto em Montelirio quanto em Valencina, na Idade do Cobre Ibérica Pré-Cultura do Vaso Campaniforme, não existem túmulos de indivíduos do sexo masculino remotamente comparáveis à Dama de Marfim em termos de sofisticação e riqueza. 


No início do 3° milênio a.C., sociedades Ibéricas não exibiam traços indicativos de alta estratificação social como observado na Idade do Bronze e na Idade do Ferro Europeias. Sistemas de liderança na Idade do Cobre Ibérica eram, na melhor das hipóteses, instáveis e financiadas por economia de riqueza ao invés de economia de mercadorias. A Dama de Marfim parece ter conseguido grande influência, prestígio e poder não por controle da produção agrícola mas através do seu carisma pessoal e suas conquistas ao longo da vida. Sua associação com substâncias como cinábrio, vinho e Cannabis é improvável de ser resultante exclusivamente de práticas mundanas. 


As evidências arqueológicas acumuladas fortemente apontam que mulheres possuíam posições de liderança na Idade de Cobre Europeia, pelo menos na Ibéria. Em um contexto maior, o estudo traz mais uma importante evidência suportando que mulheres eram muito valorizadas socialmente e politicamente na Idade dos Metais (no pós-Neolítico).


> Leitura recomendadaEstudo traz mais evidência derrubando a narrativa "Homem caça, Mulher coleta"


REFERÊNCIAS

  1. Cintas-Peña et al. (2023). Amelogenin peptide analyses reveal female leadership in Copper Age Iberia (c. 2900–2650 BC). Scientific Reports 13, 9594. https://doi.org/10.1038/s41598-023-36368-x
  2. https://www.science.org/content/article/most-outstanding-leader-iberian-copper-age-was-woman
  3. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3519216/
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/gene/265

Poderoso líder Ibérico da Idade do Cobre não era um homem, era uma mulher Poderoso líder Ibérico da Idade do Cobre não era um homem, era uma mulher Reviewed by Saber Atualizado on julho 09, 2023 Rating: 5

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