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Humanos foram hipercarnívoros durante a maior parte da nossa linhagem evolutiva

 
Em um notável e robusto estudo publicado hoje no periódico American Journal of Physical Anthropology (1), pesquisadores da Universidade de Tel Aviv, Israel, reconstruíram a dieta associada à linhagem evolutiva do gênero Homo que provavelmente levou à emergência da nossa espécie (Homo sapiens), com o objetivo principal de determinar o nível trófico humano durante o período Pleistoceno. Os resultados da reconstrução mostraram que os humanos se tornaram superpredadores por cerca de 2 milhões de anos, com a natureza carnívora apenas declinando com a extinção de grandes animais da megafauna (ex.: mamutes) em várias partes do mundo, e com a redução de fontes animais na dieta no final da Idade da Pedra, levando os humanos modernos (H. sapiens) a gradualmente aumentarem fontes vegetais na nutrição, até finalmente não terem mais escolha a não ser domesticar tanto animais quanto plantas (agricultura) - mas ainda carregando uma biologia em grande parte carnívora. 


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É geralmente alegado que os humanos (gênero Homo), em termos de nível trófico, são exemplos perfeitos de animais onívoros generalistas e flexíveis, capazes de adaptarem esse status a curto prazo para se adaptarem a condições ecológicas locais e a rápidas mudanças ambientais. Alguns inclusive consideram essa característica como central para a evolução humana, incluindo tamanho cerebral. Essa percepção de ‘flexibilidade dietética’ nos humanos quanto às fontes alimentares baseadas em plantas e em animais durante o Pleistoceno (2,58 milhões a 11,7 mil anos atrás) tem recebido principal suporte de observações relativas às populações modernas de caçadores-coletores (século XX), estes os quais seguem uma dieta equilibrada contendo carne, sementes frutas e outros derivados vegetais. 


Porém, a dieta dos caçadores-coletores modernos pode ser resultado de adaptações ecológicas e tecnológicas pós-Paleolíticas às condições ecológicas do Antropoceno que não são análogas às condições que humanos experienciaram durante a maior parte do Pleistoceno. De fato, com uma drástica menor abundância de megafauna e com características tecnológicas como o uso de cães, arcos e flechas, ferro e contato com agricultores e criadores de animais vizinhos, é naturalmente esperado que os caçadores-coletores modernos sejam mais análogos em termos de padrões de dieta aos seus prováveis ancestrais humanos do pós-Paleolítico ou Paleolítico Terminal do que aos humanos do Paleolítico Inferior, Médio e mesmo Superior. 


Humanos, sem sombra de dúvidas, sempre foram onívoros, se alimentando em mais de um nível trófico. No entanto, o termo ‘onívoro’ nos mamíferos não é homogêneo em termos de variabilidade da dieta (razão animal-planta). Onívoros existem em um amplo espectro de níveis trópicos e possuem variáveis graus de especialização. Por exemplo, tanto chimpanzés quanto lobos são tecnicamente onívoros, mas muito pouco adaptados a uma alta flexibilidade nas suas fontes de alimentação. Com base em grandes bancos de dados de níveis tróficos do clado Mammalia, é encontrado que cerca de 80% dos mamíferos são onívoros, mas com a maioria desses onívoros (75%) consumindo mais de 70% de alimentos oriundos ou de plantas ou de animais, deixando apenas os 20% restantes no grupo de onívoros generalistas. Entre os primatas, grande parte são onívoros especializados. 


Nesse sentido, existem evidências bem óbvias apontando para uma relação bem mais próxima dos humanos modernos com uma dieta carnívora do que com uma dieta vegetariana. Por exemplo, podemos citar a similaridade do intestino humano com aquele de animais carnívoros, a absorção preferencial de ferro-heme do que de ferro planta-originário (!), ocorrência comum de resistência à insulina, alta acidez estomacal, e o uso exclusivo de humanos como hospedeiro pelo verme platelminto Taenia saginata, uma espécie da família Taeniidea, cujos membros são parasitas de carnívoros. 


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No novo estudo, os pesquisadores realizaram uma compreensiva revisão da literatura acadêmica, englobando quase 400 estudos de diferentes disciplinas científicas (zoologia, arqueologia, paleontologia, genética, fisiologia, morfologia, metabolismo, patologia, etnografia) e resultando em 25 linhas de evidência, para explorar a evolução do nível trófico que marcou a linhagem humana diretamente associada com os humanos modernos. 


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A revisão trouxe forte evidência de que o nível trófico da linhagem Homo que mais provavelmente levou aos humanos modernos evoluiu de uma fraca até uma alta posição carnívora durante o Pleistoceno, começando com o Homo habilis e atingindo o ápice no Homo erectus, com os humanos modernos (Homo sapiens) sendo caracterizados como hipercarnívoros (>70% da dieta oriunda de predação) e se especializando na caça de grandes animais até o Paleolítico Superior. No final do Paleolítico (~85 mil anos atrás), uma tendência de reversão da dieta altamente carnívoro foi iniciada, sendo reforçada no Mesolítico/Epipaleolítico e Neolítico, há cerca de 40 mil anos, culminando no advento da agricultura. 


Em termos de biologia, uma das proeminentes evidências realçadas pelo estudo suportando que nossos ancestrais humanos eram hipercarnívoros é a acidez do nosso estômago, a qual é alta quando comparada a onívoros e mesmo a outros predadores. A produção e manutenção de uma forte acidez estomacal requer grandes quantidades de energia, e sua existência é evidência para o consumo de alimentos de origem animal. A forte acidez fornece proteção contra perigosas bactérias encontradas na carne, e humanos pré-históricos, caçando grandes animais cuja carne fornecia suporte alimentar por dias até semanas, frequentemente consumiam carne já velha contendo grandes quantidades de bactérias, e portanto a necessidade de se manter um alto nível de acidez na cavidade estomacal. 


Em algumas das outras evidências biológicas listadas pelos autores: 


- Nossa morfologia intestinal é radicalmente diferente daquela observada nos chimpanzés, estes os quais, apesar de onívoros, possuem uma dieta especializada em plantas. Nosso intestino pequeno é maior e o intestino grosso é mais curto, típico de carnívoros e limitando a habilidade dos humanos de extraírem energia das fibras de plantas. 


- Em onívoros, a gordura é armazenada em um relativo pequeno número de grandes células adiposas, enquanto que em predadores, incluindo humanos, é o contrário: nós temos um número muito maior de células adiposas de menor dimensão. Além disso, temos reservas adiposas em quantidade muito maior do que outros primatas não-humanos, indicando adaptação a períodos de mais longo jejum. Essa adaptação pode ter ajudado a superar a errática oferta de grandes presas. 


- Considerando que os humanos possuem um alto requerimento energético – especialmente devido à grande massa cerebral –, e hábitos diurnos, a caça de animais é conveniente para maximizar o aproveitamento do dia, ao fornecer 10 vezes mais energia por hora de atividade comparado com a busca e consumo de plantas. 


- Adaptações para corridas de resistência são encontradas já no H. erectus, uma habilidade muito útil para a caça. Ombros nessa espécie são adaptadas para o lançamento de lanças. 


- Humanos, como carnívoros, possuem uma baixa sensibilidade fisiológica (não-patológica) à insulina. 


- Em termos de genética, os autores citam, por exemplo, que áreas do genoma humano são desligadas para permitir uma dieta rica em gordura, enquanto que nos chimpanzés – nossos parentes evolutivos mais próximos ainda vivos – áreas do genoma estão ligadas para permitir uma dieta rica em carboidratos, ou seja, tipicamente vegetariana. 


Complementando com evidências arqueológicas, os pesquisadores destacaram que ferramentas de pedra específicas à utilização de alimentos planta-baseados só começaram a aparecer há cerca de 85 mil anos na África e há apenas 40 mil anos na Europa e na Ásia, e a prevalência dessas só aumentou pouco antes da emergência da agricultura, sinalizando aumento do consumo de plantas de forma bem tardia no Paleolítico. 


Em termos de paleontologia, análises de isótopos de nitrogênio em colágenos fossilizados de humanos têm mostrado que os humanos eram altamente carnívoros até muito tarde, antes da emergência da agricultura. Cáries dentárias, evidência de consumo substancial de carboidratos, aparecem apenas há cerca de 15 mil anos na população humana, evidenciando um alto consumo de plantas. 


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Seguindo a analogia zoológica com grandes carnívoros sociais que caçam grandes presas, os pesquisadores concluíram que os humanos foram hipercarnívoros, com cerca de 70% da dieta derivada de animais. Mesmo com o declínio dessa natureza carnívora desde o final do Paleolítico, e emergência de novas adaptações para uma dieta mais vegetariana (incluindo inovações tecnológicas), características biológicas de carnívoros ainda hoje marcam de forma substancial nossa espécie. Humanos no Paleolítico não eram ‘caçadores-coletores’, eram essencialmente caçadores e provavelmente um dos mais temidos predadores do período. 


Aliás, o nível trófico carnívoro pode explicar a expansão do H. erectus para a Eurásia há cerca de 1,8 milhão de anos como resultado da presença de presas de grande porte nos novos territórios, e não como algo permitido pela grande flexibilidade da dieta. 


Charles Darwin propôs que a adaptação de espécies para a obtenção e digestão de alimentos é a principal fonte de mudanças evolucionárias, algo também evidenciado pelos estudos evolutivos modernos. Portanto, a conclusão de que humanos eram superpredadores ao longo de grande parte do seu percurso evolutivo pode fornecer maior esclarecimento da evolução biológica e cultural da nossa espécie. 


(1) Publicação do estudo: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ajpa.24247

Humanos foram hipercarnívoros durante a maior parte da nossa linhagem evolutiva Humanos foram hipercarnívoros durante a maior parte da nossa linhagem evolutiva Reviewed by Saber Atualizado on abril 05, 2021 Rating: 5

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