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Essa planta evoluiu para se esconder dos humanos


Em um estudo publicado esta semana no periódico Current Biology (1), pesquisadores do Instituto Kunming de Botânica da Academia Chinesa de Ciências e da Universidade de Exeter, Reino Unido, reportaram um fascinante achado. Uma planta bastante usada na medicina tradicional Chinesa - espécie  Fritillaria delavayi - e habitante de declives pedregulhosos nas montanhas de Hengduan, China, evoluiu - e provavelmente continua evoluindo - no sentido de se tornar menos visível para os humanos. Usando análises observacionais e computacionais, os pesquisadores mostraram que a cor das folhas dessa planta se tornou dramaticamente mais similar ao ambiente de fundo em regiões onde existe uma maior colheita dessa espécie por povos locais. Em outras palavras, a grande demanda por essas plantas está representando uma forte pressão seletiva, fomentando a maior prevalência de cores associadas a uma melhor camuflagem. 


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Nos últimos anos, um número de plantas têm sido observadas de usarem camuflagem como uma estratégia defensiva contra herbívoros, com o grau de assimilação ao background proporcional ao nível da pressão seletiva (presença de mais ou menos animais herbívoros). A planta da espécie F. delavayi é uma erva perenial alpina distribuída ao longo de declives cobertos por pedras soltas nas montanhas de Hengduan. Essa planta expressa folhas apenas durante fases mais jovens e produz uma única flor anualmente após o quinto ano de vida. Plantas adultas florescem no verão (junho) e morrem no inverno (outubro) todos os anos.



Como pode ser visto nas fotos acima, a cor da folha da F. delavayi varia entre diferentes populações, desde o cinza ao marrom, até o verde. Plantas cinzas ou amarronzadas são bem camufladas no ambiente pedregulhoso, enquanto indivíduos verdes são bem destacados no ambiente e facilmente visíveis. A presença de colorações altamente camufláveis nessa espécie inicialmente sugere a presença de animais herbívoros na região que ativamente se alimentam dessas plantas. 


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No novo estudo, os pesquisadores primeiro buscaram investigar a existência de possíveis herbívoros impondo forte pressão seletiva na F. delavayi. Após 5 anos investigando as populações acessíveis na região, eles não conseguiram encontrar significativo registro de herbívoros se alimentando dessa planta, e não encontraram nenhum estudo acadêmico reportando herbívoros na área. Aliás, a F. delavayi é rica em compostos químicos alcaloides usados para defesa, e os quais são conhecidos de serem efetivos em deter herbívoros, como ratos.


O bulbo da F. delavayi ("Lu Bei") é uma importante fonte para a medicina tradicional Chinesa "Chuan Bei Mu". Ironicamente, são os alcaloides de defesa contra herbívoros que tornou essa planta atrativa para os humanos na China, com o uso medicinal associado persistindo por mais de 2 mil anos. O preço dos bulbos inclusive aumentou nos últimos anos, alcançando o equivalente a US$480,00 por quilograma (kg). A média da massa seca de um único bulbo é de 0,28 gramas, e mais de 3500 plantas individuais são requeridas para a colheita de apenas 1 kg de bulbos. Portanto, a pressão de colheita sobre a F. delavayi é alta.


Nesse sentido, os pesquisadores resolveram analisar o quão bem a coloração das plantas se assimilavam às cores do ambiente em 8 diferentes populações. Eles encontraram significativa divergência de cores inter-populacionais, e que em certas regiões as plantas se camuflavam muito bem com o ambiente. Os resultados dessa análise mostraram claramente que a atual divergência de cores da F. delavayi não era algo simplesmente aleatório, mas o resultado de seleção população-específica.


No próximo passo do estudo, os pesquisadores investigaram a associação entre camuflagem da planta com a pressão de colheita entre as 8 populações analisadas. Entrevistando várias comunidades na região, eles encontraram que o nível de camuflagem das plantas estava, de fato, significativamente correlacionado com o nível de colheita em diferentes áreas. Para reforçar esse achado, eles também realizaram um experimento computacional com um grupo de voluntários, onde as pessoas tinham que identificar - através de fotos e simulação de um cenário de típica colheita - onde um espécime de F. delavayi estava localizado no ambiente. Os resultados mostraram que as plantas bem camufladas eram bem mais difíceis de serem detectadas (maior tempo de correta identificação) pela visão humana.


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Somando todos os achados, os pesquisadores concluíram que a pressão seletiva imposta por diferentes níveis de colheita fomentaram a evolução de cores diferenciadas na F. delavayi. Para confirmar essa hipótese, mais trabalho será necessário para descartar quaisquer potenciais herbívoros naturais co-existindo no mesmo habitat dessa planta - apesar das evidências acumuladas argumentarem fortemente contra o cenário de seleção não-humana. Ainda segundo os pesquisadores, como humanos modernos (Homo sapiens) têm coletado outros animais e plantas há muito tempo para variados propósitos, é provável que vários outros exemplos análogos de pressão seletiva humana influenciando a evolução de camuflagem podem existir na natureza.


(1) Publicação do estudo: https://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(20)31655-9

Essa planta evoluiu para se esconder dos humanos Essa planta evoluiu para se esconder dos humanos Reviewed by Saber Atualizado on novembro 21, 2020 Rating: 5

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