Espinossauros eram dinossauros capazes de nadar, aponta estudo
- Atualizado no dia 22 de fevereiro de 2026 -
A maior parte da comunidade científica acreditava que os dinossauros extintos até o momento descritos - e provavelmente todo esse clado de répteis (Dinosauria), com exceção das aves aquáticas - eram animais essencialmente terrestres, sem representantes aquáticos, apesar de algumas hipóteses contrárias persistirem. Em um estudo publicado em 2020 na Nature, paleontólogos descreveram fósseis encontrados na região do Saara correspondentes à cauda de um Spinosaurus aegyptiacus que trazem a primeira forte evidência empírica de que essa espécie de dinossauro - o mais longo predador conhecido - era adaptada ao ambiente aquático.
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Nas últimas décadas, estudos anatômicos e funcionais detalhados, combinados com uma abundante quantidade de pegadas fossilizadas, vinham indicando em uníssono que os dinossauros possuíam uma ecologia estritamente terrestre, com exceção do clado Maniraptora da qual pertencem os dinossauros terópodes aviários e as aves modernas, estes os quais também invadiram o ambiente aéreo. No entanto, múltiplas linhas plausíveis de evidências vinham se acumulando e indicando adaptações aquáticas nos espinossaurídeos, dinossauros terópodes de grande porte interpretados como predadores terrestres que se alimentavam de peixes ao longo das margens de corpos de água (lagos, rios, etc.), mas que não nadavam para capturar suas presas.
Análises do maior espinossaurídeo conhecido, o espinossauro da espécie S. aegyptiacus, já tinham identificado uma série de adaptações consistentes com um estilo de vida semi-aquático, incluindo membros traseiros reduzidos, pés largos com unhas chatas, ossos longos com uma cavidade medulária altamente reduzida, e um conjunto de características cranianas (narinas retraídas, por exemplo). No entanto, essa interpretação tem sido desafiada, especialmente pela falta de mais robustas evidências fósseis e a falta de um mecanismo plausível de impulsionamento para o nado - considerando a tradicional anatomia associada aos espinossauros e o seu enorme tamanho. Para piorar, hoje só existe um único esqueleto de espinossauro, com o restante de registros fósseis tendo sido destruído durante a Segunda Guerra Mundial (apenas desenhos restaram). Especificamente, a anatomia e a função da cauda, com a escassez de fósseis, têm sido reconstruída em maior parte via comparação anatômica com outros terópodes (animais tetrápodes que se locomovem apoiados sobre duas pernas - bípedes -, como os humanos, aves e um número de dinossauros aviários e não-aviários) de tamanho similar.
Nesse sentido, no estudo de 2020, um time multidisciplinar de paleontólogos - suportado pela National Geographic Society - resolveu investigar mais a fundo o único esqueleto de espinossauro existente, pertencente a um espécime subadulto. Liderado pelo paleontólogo Dr. Nizar Ibrahim da Universidade de Detroit Mercy, o time retornou para o local de escavação onde o esqueleto fossilizado - datado do período Cretáceo, há cerca de 100 milhões de anos - foi primeiro encontrado em 2008, nas formações saarianas do Grupo Kem Kem, no Marrocos, África (1).
Entre os anos de 2015 e 2019, os pesquisadores conseguiram recuperar mais fósseis do esqueleto, incluindo uma série quase completa da cauda, a qual revelou um formato de nadadeira capaz de extensivo movimento lateral - disposições das vértebras marcadamente diferentes de outros dinossauros terópodes e indicando alta flexibilidade - e caracterizada por espinhas verticais extremamente longas e de variadas dimensões. Os pesquisadores, então, hipotetizaram que a morfologia altamente especializada da cauda do Spinosaurus permitiria sua função como uma estrutura propulsiva para a locomoção aquática.
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(1) Aliás, nessa região, vivia uma grande diversidade de predadores do Cretáceo, incluindo enormes crocodilianos, pterossauros e quatro dos maiores predadores conhecidos da história da Terra, incluindo o Espinossauro e o Carcarodontossauro. Para mais informações, acesse: Paleontólogos revelam o "lugar mais perigoso na história da Terra"
> Bem maior do que o tão famoso Tyrannosaurus rex, o fóssil do S. aegyptiacus encontrado no Saara indica um espécime com cerca de 15 metros de comprimento e uma massa em torno de 7 toneladas. Com dentes cônicos e um focinho similar àquele de um crocodilo, essa espécie, assim como outros espinossauros, possuía uma característica grande "vela de embarcação" nas suas costas, sustentada por longas espinhas ósseas.
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Após preparar todos os fósseis reunidos, o time usou fotogrametria para capturar digitalmente a anatomia da cauda. Para quantitativamente investigar a performance da cauda em um cenário de nado, um grupo da Universidade de Harvard produziu um modelo flexível de plástico e o anexou a um sistema robótico visando imitar movimentos de natação. Então eles compararam a performance de nado do modelo de cauda do espinossauro a modelos de cauda de outros animais, extintos ou não, incluindo dois tetrápodes semi-aquáticos - um crocodilo (Crocodylus niloticus) e uma salamandra (Triturus dobrogicus) -, e dois terópodes terrestres - os dinossauros Coelophysis bauri e Allosaurus fragilis -, e um formato retangular como controle.
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(1) Aliás, nessa região, vivia uma grande diversidade de predadores do Cretáceo, incluindo enormes crocodilianos, pterossauros e quatro dos maiores predadores conhecidos da história da Terra, incluindo o Espinossauro e o Carcarodontossauro. Para mais informações, acesse: Paleontólogos revelam o "lugar mais perigoso na história da Terra"
> Bem maior do que o tão famoso Tyrannosaurus rex, o fóssil do S. aegyptiacus encontrado no Saara indica um espécime com cerca de 15 metros de comprimento e uma massa em torno de 7 toneladas. Com dentes cônicos e um focinho similar àquele de um crocodilo, essa espécie, assim como outros espinossauros, possuía uma característica grande "vela de embarcação" nas suas costas, sustentada por longas espinhas ósseas.
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Após preparar todos os fósseis reunidos, o time usou fotogrametria para capturar digitalmente a anatomia da cauda. Para quantitativamente investigar a performance da cauda em um cenário de nado, um grupo da Universidade de Harvard produziu um modelo flexível de plástico e o anexou a um sistema robótico visando imitar movimentos de natação. Então eles compararam a performance de nado do modelo de cauda do espinossauro a modelos de cauda de outros animais, extintos ou não, incluindo dois tetrápodes semi-aquáticos - um crocodilo (Crocodylus niloticus) e uma salamandra (Triturus dobrogicus) -, e dois terópodes terrestres - os dinossauros Coelophysis bauri e Allosaurus fragilis -, e um formato retangular como controle.
Os resultados dos testes experimentais mostraram que o formato da cauda do Spinosaurus era capaz de gerar mais de 8 vezes o impulso gerado pelo formato da cauda de outros terópodes, e alcançando 2,6 mais eficiência. O maior impulso foi alcançado pelo formato da cauda da salamandra T. dobrogicus (1,8 vezes aquela do espinossauro), mas o formato da cauda do crocodilo C. niloticus alcançou a maior eficiência propulsiva (1,5 vezes aquela do espinossauro).
Somando às outras características corporais suspeitas de serem adaptações aquáticas, a anatomia da cauda do S. aegyptiacus fornece a mais forte e sólida evidência de que os dinossauros do gênero Spinosaurus foram predadores aquáticos altamente especializados que perseguiam e capturavam suas presas dentro da coluna de água - e não ao longo das margens (!).
As formações do Grupo Kem Kem trazem uma fauna do Cretáceo bastante atípica, dominada por predadores e por animais em sua maioria de estilo de vida aquático, incluindo vários peixes e crocodilianos de grandes dimensões. Isso reforça a natureza piscívora do Spinosaurus, locomoção preferencialmente aquática e a evolução de um grande tamanho corporal para competir com outros predadores aquáticos de grande porte.
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Como várias das características observadas no Spinosaurus são compartilhadas por outros membros da família Spinosauridae (espinossaurídeos), é possível que outros gêneros de dinossauros também adotaram estilos de vida aquática e dieta piscívora em alguma extensão. Considerando que esse clado seguramente persistiu por 50 milhões de anos (registro fóssil se estendendo do final do Jurássico até o final do Cretáceo, mas com inferência filogenética de emergência em meados ou início do Jurássico) e teve uma distribuição quase global (fósseis reportados na Europa, Ásia, África e América do Sul), as evidências apontam, portanto, uma ampla invasão de habitats aquáticos pelos dinossauros, em oposição ao cenário mais defendido de exclusividade terrestre e eventual conquista aérea como única exceção.
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ATUALIZAÇÃO: Um estudo publicado no periódico Cretaceous Research trouxe mais uma forte evidência confirmando que os espinossauros eram dinossauros terópodes gigantes que passavam a maior parte do tempo na água. No caso, foram encontrados em dois locais na bacia ao sul do sistema fluvial Kem Kem mais de mil dentes de espinossauros, contando por 45% do total de vestígios dentários na área do antigo rio. Em contraste, apenas 1-6% (dependendo da localidade) eram dentes fossilizados de dinossauros terrestres. Existiam mais dentes de espinossauro associados ao rio do que de peixes-serras extintos (Onchopristis) que comumente habitavam a região. Um animal vivendo grande parte da vida na água irá naturalmente contribuir de forma substancial para os depósitos de dentes no rio.
(!) VADEAVAM OU NADAVAM?
Apesar do estudo de 2020, muito debate acadêmico ainda persiste sobre os hábitos aquáticos dos espinossauros. Esses dinossauros realmente nadavam ou mergulhavam habitualmente, ou caçavam como garças, vadeando em regiões costeiras ou nas margens e áreas rasas de rios? Fósseis dos espinossauros são ainda limitados e geralmente fragmentados, dificultando elucidar conclusivamente essa questão. Algo é quase certo: eram especialistas na caça e no consumo de peixes, embora pudessem predar outros dinossauros de forma talvez oportunística.
Nesse contexto, em um estudo recente publicado no periódico Science, pesquisadores descreveram uma nova e notável espécie de espinossauro, nomeada Spinosaurus mirabilis.
Os fósseis associados foram descobertos na região central do Saara, dentro de Níger (país) e próximo de Sirig Taghat.
Viveu há ~95 milhões de anos e parece ter sido um parece ter sido um predador de peixes que vivia em águas rasas, como seus parentes próximos, mas habitando uma região distante até 1000 km do Mar de Tétis. Nesse último ponto, o S. mirabilis parece ter habitado uma área florestada e cortada por rios no interior do continente.
"Imagino esse dinossauro como uma espécie de 'garça do inferno' que não tinha problemas em vadear com suas pernas robustas até dois metros de profundidade, mas provavelmente passava a maior parte do tempo à espreita em áreas mais rasas em busca de peixes grandes," disse em entrevista o Dr. Paul Sereno, autor principal do novo estudo e pesquisador na Universidade de Chicago, EUA.
Com base na descrição da nova espécie, os pesquisadores sugeriram três fases de evolução dos espinossaurídeos:
- uma primeira fase que começou no período Jurássico, quando os répteis desenvolveram um crânio alongado para a captura de peixes;
- uma segunda fase no início do período Cretáceo, que viu a disseminação desses dinossauros como predadores ao longo da costa do Mar de Tétis;
- e uma terceira fase em que esses dinossauros como o S. mirabilis se especializaram como predadores de emboscada em águas rasas no norte da África e na América do Sul.
O S. mirabilis era semelhante em tamanho e forma esquelética ao S. aegyptiacus, mas possuía uma crista óssea única em forma de cimitarra acima do crânio, que pode ter sido usada para exibição visual em vez de locomoção ou caça.
Essa crista provavelmente era coberta com queratina.
Além disso, a espécie exibia dentes interdigitados, sendo especializado em caçar e consumir peixes.
A interdigitação dos dentes, onde aqueles da mandíbula inferior se projetam para fora e se encaixam entre aqueles do maxilar, é uma adaptação de múltiplos animais piscívoros no registro fóssil - incluindo ictiossauros, crocodilos semi-aquáticos e pterossauros.
Entre os dinossauros, isso diferencia o espinossauro de seus parentes mais próximos.
É ainda incerto o potencial de crescimento da espécie. O adulto subdesenvolvido reconstruído a partir dos fósseis encontrados provavelmente tinha ~8 metros de comprimento quando morreu.
> O termo "garça do inferno" faz referência ao Ceratosuchops inferodios, uma espécie de espinossaurídeo que viveu há ~125 milhões de anos. Era um terópode carnívoro que provavelmente caçava em ambiente aquático como as atuais garças (emboscada à beira-rio).
MAIOR DINOSSAURO CARNÍVORO BRASILEIRO
O maior dinossauro carnívoro conhecido que já habitou o Brasil é justamente uma espécie de espinossaurídeo pertencente ao gênero Oxalaia (O. quilombensis). Essa espécie habitou o Nordeste do Brasil e fósseis foram descobertos em 1999 na Ilha do Cajual - especificamente no depósito Laje do Coringa, formado durante o Cretáceo Superior da Bacia de São Luis, Maranhão - e descritos em 2011 no periódico Anais da Academia Brasileira de Ciências. Os fósseis indicam que essa espécie alcançava um comprimento total entre 12 e 14 metros e uma massa corporal de 5 a 7 toneladas, tornando-a também o maior terópode já recuperado no nosso território.
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| Reconstrução do crânio do Oxalaia quilombensis em tamanho natural pela equipe do Paleozoo Brazil e baseada nas descrições dos fósseis. A espécie está muito próximo-relacionada ao gênero Africano Spinosaurus e daí o nome: "Oxalaia" refere-se à divindade africana Oxalá; já o descritor da espécie ("quilombensis"), aos assentamentos quilombolas Brasileiros. |
Leitura relacionada: Cientistas descrevem o maior predador conhecido da Europa [outra espécie de espinossaurídeo]
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Espinossauros eram dinossauros capazes de nadar, aponta estudo
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maio 01, 2020
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