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Remdesivir mostrou substancial eficácia clínica no tratamento da COVID-19



A grave pandemia do novo corona vírus (SARS-CoV-2) continua avançando, e, até o momento, não existe nenhum tratamento efetivo cientificamente confirmado e potenciais vacinas ainda estão em fases iniciais de testes em humanos. Apesar de centenas de medicamentos promissores estarem sendo avaliados em testes laboratoriais e em testes clínicos com pacientes, evidências de eficácia são ainda limitadas ou conflitantes. Agora, um estudo clínico randomizado de grande porte (!) encontrou eficácia clínica com o uso do antiviral remdesivir.

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O fármaco experimental, chamado de remdesivir, interfere com a replicação de alguns vírus, incluindo o SARS-CoV-2. Ontem (29/04), o diretor do Instituto Nacional de Alergia e de Doenças Infecciosas dos EUA (NIAID), Anthony Fauci, anunciou que um teste clínico envolvendo 1063 participantes, recrutados de 68 regiões nos EUA, Europa e Ásia, mostrou que pacientes tomando remdesivir se recuperaram em uma média de 11 dias, comparado com 15 dias daqueles sob placebo.

"Apesar de uma melhora de 31% [no quadro clínico do paciente] não parecer como uma resolução de 100%, o resultado é muito importante como prova de conceito," disse Fauci durante uma reunião no Salão Oval na qual o presidente Donald Trump também estava presente (1). "Provou que um medicamento pode bloquear o vírus."

Ainda de acordo com a NIAID, as mortes também foram reduzidas no grupo de pacientes recebendo o medicamento (7,1% vs 11,6% no grupo de placebo). Durante as análises preliminares, as evidências acumuladas foram suficientes para que o estudo clínico fosse parado e aqueles recebendo placebo passassem a receber também remdesivir, por questões éticas. Segundo Fauci em seu pronunciamento, o remdesivir se tornaria um tratamento padrão para a COVID-19.

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(!) ATUALIZAÇÃO (26/05/20): O estudo foi agora devidamente revisado por pares e publicado no periódico The New England Journal of Medicine (4), confirmando o reporte do NIAID. Além das reduções no tempo de hospitalização e na taxa de mortalidade já mencionadas, eventos adversos sérios foram mais frequentes no grupo de controle (27%) do que no grupo recebendo o medicamento (21%). Foram 28 sérias falhas respiratórias naqueles recebendo o Remdesivir (5,2%) e 42 naqueles recebendo o placebo (8%). O número médio de dias entre o surgimento de sintomas nos pacientes e a randomização (aplicação aleatória de medicamento ou de placebo) foi 9 (variando de 6 a 12 dias). Do total de pacientes, 88,7% estava com uma forma severa da doença no começo do estudo clínico.

Segundo concluíram os autores do estudo, os achados do estudo dão suporte para o uso do remdesivir para pacientes que estão hospitalizados com COVID-19 e sob terapia suplementar de oxigênio. No entanto, dada a alta mortalidade apesar do uso de remdesivir, os autores reforçam que o uso isolado do medicamento provavelmente não será suficiente e que futuras estratégias deveriam considerar uso combinado de fármacos ou outras vias terapêuticas.
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"Existe um grande foco no remdesivir porque esse medicamento é potencialmente a melhor aposta que nós temos," comentou o virologista Stephen Griffin, da Universidade de Leed, Reino Unido, em uma entrevista para a Nature (2). "Pode não ser o medicamento maravilhoso que todo mundo está procurando, mas se você consegue impedir que alguns pacientes se tornem criticamente doentes, já é bom o suficiente."

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Testes clínicos de menor porte sendo reportados previamente sobre o medicamento vinham gerando resultados conflitantes. O último deles de porte considerável, envolvendo 237 pacientes na China e publicado no periódico The Lancet (3) no mesmo dia do pronunciamento da NIAID, não encontrou eficácia clínica no uso do remdesivir, seja na velocidade de recuperação seja na redução na taxa de mortes comparado com o uso de placebo. O estudo encontrou uma redução no tempo de ventilação mecânica invasiva em pessoas tratadas com o medicamento dentro de 10 dias após os sintomas emergirem, apesar da redução não ter sido estatisticamente significativa. O medicamento também mostrou ser bem tolerado pelos pacientes, apesar de alguns terem abandonado o tratamento por causa de eventos adversos incluindo sintomas gastrointestinais, piora do status cardiopulmonar e aumento nos níveis de bilirrubina ou amintoransferase.

No entanto, os pesquisadores responsáveis pelo estudo Chinês realçaram que é preciso calma na interpretação dos resultados porque eles tiveram que parar o teste clínico antes do prazo previsto por causa da dificuldade de recrutamento de pacientes após o fim do grave surto epidêmico no país. Nesse sentido, os pesquisadores pediram que mais estudos de grande porte fossem feitos para melhor esclarecer os efeitos terapêuticos da droga no tratamento de pacientes com COVID-19.

O remdesivir (GS-5734) é uma pró-droga nucleosídea análoga desenvolvida pela Gilead Sciences (EUA) que consegue se ligar a uma enzima que muitos vírus, como os filovírus, paramixovírus, pneumovírus e coronavírus - incluindo o SARS-CoV-2 - usam para se replicar (pelo menos como demonstrado em testes in vitro usando células humanas e não-humanas). Nesse sentido, o remdesivir entra no local ativo de replicação do vírus e se liga covalentemente ao genoma viral, inibindo a replicação do vírus. O medicamento é um potente inibidor da replicação do SARS-CoV-2 em células epiteliais humanas nasal e bronquial. Em testes clínicos envolvendo macacos Rhesus, o remdesivir mostrou significativos e positivos efeitos terapêuticos

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A Gilead começou a elevar a produção do fármaco bem antes dos resultados da NIAID, e já pelo final de março a companhia tinha produzido quantidade suficiente para 30 mil pacientes. A companhia espera otimizar a produção, visando uma quantidade suficiente para tratar mais de um milhão de pessoas até o final do ano. Essas estimativas são baseadas em um tempo de tratamento de 10 dias, mas os resultados do novo teste clínico conduzido pela NIAID indicam que um curso de 5 dias pode também funcionar da mesma forma - ou seja, é possível que mais de 2 milhões de pacientes hospitalizados possam receber o medicamento produzido pela empresa até o final do ano.

A Gilead também autorizou a fabricação do medicamento Remdesivir por empresas farmacêuticas de genéricos na Índia e no Paquistão. Além disso, permitiu que cinco companhias de genéricos - Cipla Ltd., Ferozsons Laboratories, Hetero Labs Ltd., Jubilant Lifesciences e Mylan - fabricassem o medicamento para a distribuição em 127 países, quase todos representados por nações subdesenvolvidas e em desenvolvimento, e também para várias nações de média ou alta renda que enfrentam significativos obstáculos para o acesso da população à saúde pública/privada. Até o momento, o Brasil não entrou na lista (6).


(1) Referência: Science Magazine (o estudo clinico ainda não foi publicado em periódico)

(2) Referência: Nature

(3) Publicação do estudo: The Lancet

(4) Publicação do estudo: NEJM

(6) Referência: Gilead

Remdesivir mostrou substancial eficácia clínica no tratamento da COVID-19 Remdesivir mostrou substancial eficácia clínica no tratamento da COVID-19 Reviewed by Saber Atualizado on abril 30, 2020 Rating: 5

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