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Complicações do sarampo podem englobar hepatite, apendicite e meningite


- Atualizado no dia 14 de setembro de 2026 - 

Já era sabido que o sarampo, uma das doenças humanas mais contagiosas, além de ser perigoso por si só, pode levar a complicações secundárias potencialmente letais, como pneumonia e inflamações cerebrais. Somando-se a isso, um estudo publicado em novembro de 2019 (1) tinha encontrado que a infecção por esse vírus compromete o sistema imune por meses ou até mesmo por anos, levando o corpo a literalmente 'esquecer' sua imunidade desenvolvida a outros patógenos no passado. E essa baixa no espectro do sistema imune pode ultrapassar 70%. Um estudo subsequente de 2020 publicado no BMJ Case Reports (Ref.1) reforçou mais uma vez que não podemos subestimar o sarampo, ao reportar mais três condições sérias causadas pela doença.


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O sarampo é uma doença de alta transmissibilidade causada por um vírus RNA, gênero Morbillivirus, família Paramyxoviridae. Um doente é capaz de transmitir para outras 12 a 18 pessoas. Outra característica do sarampo é o período longo de transmissibilidade do vírus: seis dias antes do exantema a quatro dias depois do seu aparecimento. 

O sarampo é uma doença potencialmente grave que cursa com febre, coriza, conjuntivite e manchas vermelhas pelo corpo, que tem início na região retroauricular e dissemina-se para rosto, tronco e membros: chamada de distribuição craniocaudal. As clássicas lesões ou manchas de Koplik, que são lesões de 2 a 3mm de diâmetro, discretamente elevadas, de cor branca com base eritematosa, localizadas na região interna da mucosa oral, na altura do segundo molar superior, estão presentes em alguns casos, antes do exantema e desaparecem em 48 horas. 

O sarampo tem a capacidade de deprimir a resposta imune para outros patógenos. Assim, a doença pode evoluir com complicações infecciosas bacterianas como a otite média e a pneumonia, especialmente em crianças menores de cinco anos, desnutridos e imunodeprimidos.

 
Homem de 26 anos com sarampo (infecção primária) e histórico vacinal incompleto. O paciente apresentou um quadro de 5 dias de evolução com febre, náusea e vômitos, além de uma erupção cutânea pruriginosa iniciada há 2 dias. A erupção começou atrás das orelhas e disseminou-se para a face e todo o corpo dentro de 24 horas. O exame físico revelou um exantema constituído por inúmeras máculas puntiformes e pápulas discretamente elevadas na face (Fig.A) e no tronco (Fig.B). Observaram-se também erosões bem delimitadas na mucosa bucal (manchas de Koplik), em ambos os lados da boca, um sinal característico do sarampo. Teste sorológico para anticorpos IgM e IgG e teste RT-PCR confirmaram o diagnóstico de sarampo. Autoridades de saúde pública foram notificadas e o rastreamento de contatos foi iniciado. Foram identificados cinco casos adicionais de sarampo, mas não ocorreu um surto de maior proporção. Duas semanas após a apresentação inicial, o paciente havia se recuperado sem complicações. Ref.3

A infecção por sarampo durante a gravidez está associada ao aumento do risco de complicações, incluindo aborto, parto prematuro, doença neonatal, baixo peso ao nascer e morte materna. Importante, a gestante não pode ser vacinada, porque a vacina é feita de vírus vivo atenuado. Assim como os imunodeprimidos, a prevenção da infecção na grávida deve ser realizada a profilaxia pós-exposição com imunoglobulina endovenosa.

A doença é totalmente prevenível com a vacinação, esta a qual é segura e efetiva. Até algumas décadas atrás era pensado que o sarampo seria extinto devido à vacina, assim como ocorreu com a varíola. Porém, no início do século XXI, campanhas antivacinas contra a tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba) fomentadas por um estudo criminoso publicado no final da década de 1990 (1) levaram a um substancial declínio nas taxas de vacinação. Em 2017, o número total de mortes devido ao sarampo alcançou 110 mil, a maioria crianças muito novas.

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E desde 2017, o sarampo está ressurgindo de forma preocupante em vários países - e de forma notável nos EUA -, refletindo uma crescente vulnerabilidade nos sistemas públicos de saúde, aumento dos conflitos armados e significativa queda na cobertura vacinal (Ref.4-5). É necessário mais de 90% de imunidade populacional para prevenir transmissão sustentada do vírus (imunidade de rebanho). Estimativas do número básico de reprodução (R0) do vírus do sarampo - o número médio de infecções secundárias gerada por um único caso típico de sarampo em uma população totalmente suscetível - frequentemente excedem 10 (Ref.6). A vacina tríplice viral é segura e fornece forte proteção contra o sarampo por décadas.

Muitas das mortes atribuídas diretamente ao vírus do sarampo são causadas por infecções secundárias devido à ação do vírus de infectar e danificar funcionalmente as células do sistema imune. Durante os primeiros 3 a 10 dias de infecção, 20 a 70% das células de memória são infectadas, incluindo células-B, células-T, e células do plasma no tecido linfoide e no sangue periférico. Extensivos danos de longo prazo na memória do sistema imunológico também podem ser causadas pela infecção. Esse robusto ataque ao sistema imune potencialmente pode causar graves danos em órgãos de todo o corpo.

O estudo de 2020 reportou e descreveu três casos envolvendo complicações antes não associadas ao sarampo, tratados em um hospital de Malta, EUA, em 2019. Os três pacientes com sarampo desenvolveram essas complicações como resultado direto da infecção.

O primeiro caso foi um homem maltês de 29 anos sem problemas médicos prévios significativos, apresentando um histórico de 4 dias com febre associada com calafrios, náuseas e múltiplos episódios de vômito. O paciente tinha tomado apenas uma das duas doses da vacina contra o sarampo. Outros sintomas observados e subsequentes análises laboratoriais denunciaram infecção por sarampo complicada por hepatite. O paciente foi tratado com fluídos de forma intravenosa. Após 3 semanas o paciente se recuperou sem qualquer sequela e as funções hepáticas melhoraram.

O segundo caso foi uma mulher britânica de 18 anos, durante uma viagem para Malta, com um histórico de 3 dias de erupções vermelhas com coceira no seu tronco, face e membros. Outros sintomas, como tosse seca e dor na fossa ilíaca - exacerbada por movimentos - também foram observados. Exames laboratoriais e raios-X revelaram sarampo complicado por apendicite, e uma infecção viral no trato respiratório oportunista. Acompanhamento clínico e tratamento com antibiótico por 2 semanas foram o suficiente para a recuperação total. A paciente nunca tinha tomado a vacina contra o sarampo.

O terceiro caso, um homem de 42 anos de idade, foi diagnosticado com sarampo pelo clínico geral, confirmado com exames laboratoriais. A infecção também deflagrou dor de cabeça severa, visão embaçada, irritação ocular, e um quadro de conjuntivite. O paciente estava febril e com leve enrijecimento do pescoço. Meningite viral também foi diagnosticada. Análises subsequentes revelaram lesões pseudo-dendríticas bilaterais, tratada com suspensão ocular de dexametasona por 7 dias. Após acompanhamento clínico por 2 semanas, o paciente teve total recuperação.


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Esses casos reforçam a importância da vacinação. Complicações para o sarampo têm sido reportadas em cada órgão humano devido à imunossupressão generalizada. De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), aproximadamente 30% dos casos reportados de sarampo são acompanhados de uma ou mais complicações, ocorrência mais comum em crianças com menos de 5 anos de idade e adultos com mais de 20 anos. Complicações respiratórias são as mais comuns, apresentando-se como pneumonite, pneumonia ou supra-infecção bacteriana. A severidade irá depender do estado avançado da infecção, e tratamento intensivo pode ser necessário. Danos neurais permanentes também podem emergir e causar inclusive um estado vegetativo.

Muitos associam o sarampo apenas como uma "doença incômoda" e com prejuízos essencialmente estéticos, por deixar marcas visíveis e generalizadas na pele. Porém, essa infecção viral está associada a uma significativa taxa de mortalidade e alta taxa de hospitalizações, especialmente por representar uma porta de entrada para diversas e graves condições patológicas, de forma similar à AIDS, e por isso é tão perigosa para idosos e crianças pequenas. Nesse contexto, pode causar desde pneumonia e encefalite até a morte.


Manchas de Koplik

No sarampo, o aparecimento das manchas de Koplik na mucosa geralmente ocorre um dia antes do início da erupção cutânea. Elas aparecem como lesões branco-azuladas, ligeiramente elevadas, com um diâmetro de aproximadamente 2 a 3 mm, sobre uma base eritematosa na mucosa bucal - geralmente na parte interna das bochechas - oposta ao primeiro molar.  Essa aparência característica das manchas de Koplik às vezes é descrita como "grãos de sal sobre um fundo vermelho'. A aparência azulada deve-se ao colar de veias dilatadas ao redor do ducto glandular submucoso, e a porção branca provavelmente se deve à destruição das células do epitélio glandular. Ocasionalmente, elas também podem aparecer em outras áreas, como o palato mole, a prega conjuntival e a mucosa vaginal ou intestinal, e geralmente persistem por 2 ou 3 dias.

Relatos indicam que as manchas de Koplik aparecem em 60% a 70% das pessoas que sofrem de sarampo (Ref.7). O auge da erupção ocorre quando a erupção cutânea aparece e começa a se espalhar. À medida que a erupção cutânea progride, a mancha na mucosa perde sua aparência característica e torna-se discreta, resultando em um fundo vermelho difuso com inúmeras manchas branco-azuladas espalhadas aleatoriamente em sua superfície. Por fim, após alguns dias, a mucosa retorna à sua aparência normal.


REFERÊNCIAS
  1. Xerri et al. (2020). Complications of measles: a case series. BMJ Case Reports, Volume 13, Issue 2. https://doi.org/10.1136/bcr-2019-232408
  2. Medeiros, E. A. S. (2020). Entendendo o ressurgimento e o controle do sarampo no Brasil. Acta Paulista de Enfermagem, 33. https://doi.org/10.37689/acta-ape/2020EDT0001
  3. Lammer & Böckle (2026). Primary Measles Infection. NEJM, 394:906. https://doi.org/10.1056/NEJMicm2514397
  4. https://gvn.org/global-virus-network-warns-measles-resurgence/
  5. Headley & Tozan (2026). Association of armed conflict and global measles cases: A structural equation modeling analysis of 193 countries from 2000 to 2023. PLoS Med 23(6): e1004819. https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1004819
  6. Amadi et al. (2026). Sustaining herd immunity against measles: Insights from a serological cohort study in an outbreak-free population. Infection 54, 2053–2063. https://doi.org/10.1007/s15010-026-02832-9
  7. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK549793/

Complicações do sarampo podem englobar hepatite, apendicite e meningite Complicações do sarampo podem englobar hepatite, apendicite e meningite Reviewed by Saber Atualizado on fevereiro 25, 2020 Rating: 5

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