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Problemas de memória durante a gravidez parecem ser causados pelo alto nível circulante de estrogênio, apontou estudo

  

Muitas mulheres costumam relatar a mesma coisa durante a gravidez: entram em um cômodo e esquecem o motivo, perdem as chaves de vista ou têm dificuldade em acompanhar uma conversa. Esse fenômeno, frequentemente chamado de "cérebro de grávida" ou "momnésia" (mother [mãe] + amnésia), tem permanecido há muito tempo sem uma explicação biológica convincente.


Agora, um novo estudo - publicado no periódico Science Bulletin (Ref.1) - conduziu experimentos com camundongos e identificou um circuito cerebral específico em um modelo animal que sofre perturbação sob os níveis elevados e sustentados de estrogênio - em especial o 17β-estradiol (E2) - presentes durante a gravidez.


"Trabalhamos com modelos de camundongos projetados para mimetizar os níveis elevados e sustentados de estrogênio no sangue característicos da gravidez. Esses modelos demonstraram que o estrogênio elevado causou um comprometimento reversível da memória, sem afetar o humor ou a motivação, o que sugere um efeito cognitivo específico, em vez de uma alteração geral no bem-estar", disse em entrevista o Dr. Zheng Sun, um dos autores principais do novo estudo e professor associado de medicina e de biologia molecular e celular no Baylor College of Medicine, EUA (Ref.2).


"A ‘momnésia’ é real, tem uma base biológica definida e é temporária. Esperamos que este trabalho ajude a validar o que muitas mulheres vêm descrevendo de forma anedótica há anos e ofereça aos pesquisadores um alvo concreto para estudos futuros", disse em entrevista o Dr. Xianghua Zhuang, outro autor principal do novo estudo e professor da Universidade de Shandong, China (Ref.2).


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Mulheres frequentemente relatam alterações de memória durante a gravidez, manifestadas como esquecimento, dificuldade de concentração, dificuldades de leitura e perturbações da memória - condições comumente chamadas de "cérebro de grávida" ou "momnesia". A sensação de "névoa mental" (brain fog) também é relatada por mulheres que utilizam contraceptivos orais. Estudos em humanos constataram que a função cognitiva e as estruturas neuroanatômicas podem ser afetadas negativamente durante o uso de contraceptivos orais ou a gravidez.


A gravidez está associada a diversas alterações hormonais. O 17β-estradiol (E2) é o principal hormônio estrogênico circulante, e sua concentração aumenta significativamente durante a gestação, retornando aos níveis observados fora do período gestacional após o parto. O estriol (E3) é outro estrogênio sintetizado predominantemente durante a gravidez. No entanto, o E3 apresenta uma taxa de renovação mais rápida, e é muito menos potente que o E2. Estrogênios sintéticos também são amplamente utilizados em contraceptivos orais. O estrogênio atua por meio de receptores nucleares de estrogênio (ER) ou receptores de membrana, como o GPR30. Células que expressam ER são encontradas na hipófise e em diversas regiões cerebrais, incluindo o hipotálamo, o hipocampo, a amígdala e o córtex pré-frontal.


No novo estudo, os pesquisadores mostraram que o receptor de estrogênio alfa (ERα) - a proteína que transmite os sinais do estrogênio para o interior das células - é o receptor de estrogênio predominante na região do cérebro conhecida como hipotálamo lateral. Além disso, essa região conta com uma grande quantidade de neurônios GABAérgicos, células cerebrais que, normalmente, enviam sinais inibitórios e calmantes para outras partes do cérebro. Utilizando o sequenciamento de RNA de núcleo único, os pesquisadores descobriram que níveis elevados de estrogênio suprimem a sinalização nesses neurônios, levando-os a disparar com maior frequência.


Quando os pesquisadores removeram geneticamente os receptores de estrogênio desses neurônios hipotalâmicos, os problemas de memória induzidos tanto pelo estrogênio quanto pela gravidez em camundongos foram revertidos.


Eles também descobriram que esses neurônios hipotalâmicos hiperativos se projetam diretamente para uma região do hipocampo que é um centro fundamental para a formação da memória. Utilizando a quimiogenética - uma técnica que permite aos cientistas ativar ou desativar neurônios específicos -, foi demonstrado que silenciar essa via que liga o hipotálamo ao hipocampo protegia os camundongos de problemas de memória induzidos pelo estrogênio; por outro lado, a ativação artificial dessa mesma via era suficiente, por si só, para prejudicar a memória, mesmo na ausência de níveis elevados de estrogênio.

 

Gravidez, estrogênio e memória. Níveis elevados de estrogênio durante a gravidez atuam sobre receptores de estrogênio em neurônios GABAérgicos do hipotálamo lateral, aumentando as taxas de disparo ao longo de uma projeção para a região CA3 do hipocampo e levando a um comprometimento temporário da memória.

Para investigar se os resultados experimentais nos roedores podem ser espelhados em humanos, os pesquisadores analisaram mulheres em diferentes estágios de gravidez através de testes cognitivos. Dois grupos - 35 mulheres grávidas e 35 mulheres sem gravidez - foram avaliados e comparados com os testes e levando em conta várias covariáveis (ex.: idade, paridade, educação, etc.). Os resultados dessa parte do estudo - embora observacionais - apontaram forte correlação entre níveis circulantes de estrogênio e performance em tarefas dependentes da memória, potencialmente corroborando os experimentos com modelos não-humanos.


Os achados oferecem a primeira explicação (hipótese) biológica de como a exposição a níveis elevados de estrogênio circulante pode prejudicar temporariamente a memória.


> O estrogênio durante a gestação atinge níveis até 30 vezes superiores aos normais e é fundamental para o desenvolvimento da placenta, o crescimento do útero e a circulação sanguínea. Ao longo da gestação, os níveis estrogênio progressivamente aumentam até alcançarem um pico no terceiro trimestre.


> A exposição cíclica ao estrogênio em níveis baixos parece favorecer a função cognitiva, o que ajuda a explicar por que a terapia hormonal pode beneficiar mulheres na pós-menopausa. No entanto, a exposição prolongada a níveis elevados de estrogênio parece acionar uma via completamente diferente, centrada no hipotálamo em vez de no próprio hipocampo.


Leitura recomendada:


REFERÊNCIAS

  1. Hou et al. (2026). High-level estrogen impairs memory via estrogen receptor signaling in a hypothalamic–hippocampal neural circuit. Science Bulletin. https://doi.org/10.1016/j.scib.2026.08.057
  2. https://www.bcm.edu/news/

Problemas de memória durante a gravidez parecem ser causados pelo alto nível circulante de estrogênio, apontou estudo Problemas de memória durante a gravidez parecem ser causados pelo alto nível circulante de estrogênio, apontou estudo Reviewed by Saber Atualizado on setembro 16, 2026 Rating: 5

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