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Variante Indiana chegou no Brasil: o que sabemos sobre essa cepa?

 
Com o sistema de saúde em colapso e recordes diários de mortes e de casos confirmados, a população Indiana está enfrentando seu pior momento com a COVID-19. Cerca de 26 milhões de casos de infecção pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) já foram registrados no país, e mais de 295 mil mortes notificadas oficialmente (os especialistas dizem que o número real pode ser até 10 vezes maior, especialmente com casos reportados de centenas de corpos sendo encontrados boiando no Rio Ganges) (Ref.1). Um dos maiores problemas é a falta de suprimento médico nos hospitais, principalmente oxigênio. Outro grave problema ganhando cada vez mais notoriedade é a brusca alta nas taxas de infecções fúngicas em pacientes recuperados ou não da COVID-19, levando a maior parte ao óbito ou forçando a remoção de um olho especialmente em diabéticos (1).


(1) Para mais informações, acesseEmergente e letal ameaça em pacientes com COVID-19: Infecção oportunista com fungos 


Uma das causas que pode explicar em parte a explosiva segunda onda epidêmica na Índia - além do extremo relaxamento das medidas de controle epidêmico, grandes aglomerações festivas e descaso governamental - é a emergência e rápida disseminação da variante B.1.617, a qual se tornou dominante no país em questão de poucas semanas. A variante traz mais uma preocupação internacional e, nesta semana, o estado do Maranhão registrou os primeiros casos de infecção com a B.1.617. No caso, foram seis pessoas que chegaram ao estado a bordo do navio MV Shandong da Zhi, atracado no litoral do estado Maranhense (Ref.2).


Um dos infectados, de 54 anos, foi internado (UTI) em um hospital particular da capital, São Luís. Os outros estão isolados dentro do navio, em alto mar, a cerca de cerca de 35 quilômetros da costa. Dois deles retornaram à embarcação depois de serem medicados em hospital. Pelo menos 100 pessoas que tiveram contato com os estrangeiros infectados estão sendo monitoradas pelo governo local. Casos confirmados da nova variante também foram detectados na Argentina (Ref.3), aumentando ainda mais o alerta aqui no Brasil.


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Enquanto várias diferentes vacinas contra a COVID-19 têm sido empregadas globalmente, uma séria ameaça aos esforços de imunização é a emergência de antigenicamente distintas variantes de preocupação do SARS-CoV-2, cada vez mais selecionadas para imunoevasão e aumento de transmissibilidade. Quanto mais o vírus se espalha, mais mutações são geradas e potencialmente acumuladas. Se antes as variantes e divergências evolutivas eram dirigidas por deriva genética, agora seleção natural começa a se tornar o fator evolutivo mais importante em meio ao aumento de infectados e de indivíduos imunizados. 


Em particular, temos já quatro bem estabelecidas linhagens nesse sentido: B.1.1.7 (Reino Unido), B.1.351 (África do Sul), P.1 (Brasil) e B.1.232/B.1.427/B.1.429 (EUA). Análises genômicas do SARS-CoV-2 sugerem que existem milhares de mutações cujas implicações biológicas e à saúde humana são desconhecidas, e com as mais preocupantes afetando a estrutura da proteína Spike (S) - principal chave de entrada das partículas virais do SARS-CoV-2 nas células de mamíferos após a interação com o receptor glicoproteico ACE2, e o principal alvo dos anticorpos neutralizantes. As mutações pontuais e curtas deleções na proteína S têm sido fomentadas por pressão seletiva para aumento de afinidade visando o receptor ACE2 e escape da neutralização por anticorpos. 


No domínio de ligação do receptor (RBD) da proteína S, a linhagem B.1.1.7 adquiriu uma mutação N501Y, e as linhagens B.1.351 e P.1 compartilham essa mutação junto com as mutações K417N/T e E484K. A variante Norte-Americana possui notavelmente a mutação L452R. Todas essas mutações estão associadas com moderada a forte capacidade de evasão imune, ou seja, são variantes genéticas que conseguem facilmente driblar em significativa extensão a imunidade humoral (particularmente anticorpos neutralizantes) induzida por infecção com cepas prévias ou por imunizantes baseados nessas cepas prévias (atuais vacinas sendo empregadas). Por exemplo, a vacina da Astrazeneca (ChAdOx1 nCoV-2019) parece ter perdido importante eficácia contra a variante Sul-Africana (2).


(2) Para mais informações, acesseVacina da Oxford não possui eficácia contra a variante Sul-Africana na prevenção de COVID-19 leve a moderada, indica estudo


Estudos preprint (ainda não revisados por pares) têm indicado que a nova variante Indiana B.1.617 - potencialmente uma nova variante de preocupação - possui maior capacidade de disseminação, moderada maior capacidade de evasão imune e possivelmente maior virulência (Ref.7). Evidência limitada tem sugerido que anticorpos induzidos pela vacina da Pfizer são até 67% menos potentes contra a B.1.617, pelo menos in vitro. A variante possui em torno de 8 mutações na proteína S, três delas (E484Q, D614G e L452R) de preocupação, incluindo uma idêntica compartilhada com a variante Norte-Americana.


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Hoje já identificada em pelo menos 40 países, a B.1.617 possui três subtipos (variando de 7 a 10 substituições na proteína S): B.1.617.1, B.1.617.2 e B.1.617.3. Existe também outra altamente transmissível variante em circulação na Índia, denominada B.1.618, a qual inclui na proteína S três mutações: Δ145-146, E484K e D614G. Entre essas mutações, está a D614G, comprovadamente responsável por substancial maior disseminação viral, e a E484K, comprovadamente responsável por maior escape imune e compartilhada com as variantes P.1 e B.1.351. 


Para ambas as variantes (B.1.617 e B.1.618), os resíduos 452 e 484 estão presentes no RBD, sugerindo grande potencial de imunoevasão e/ou de resistência à neutralização por anticorpos. A mutação D145-146 está presente no domínio N-terminal, que é um conhecido local de ligação aos anticorpos, e a mutação P681R está presente nos subdomínios de clivagem S1 e S2, potencialmente afetando processamento proteolítico e resultando em aumento de infectividade. 


Um recente estudo preprint - citado pela Nature (Ref.8) - analisando partículas virais do subtipo B.1.617.1 - associado com maior capacidade de evasão imune entre os três subtipos -, encontrou que os anticorpos induzidos pelas vacinas da Pfizer (BNT16b2) e da Moderna (mRNA-1273) são 7 vezes menos efetivos em bloquear esse subtipo. Porém, os anticorpos de todos os 25 participantes vacinados do estudo se mostraram capazes de neutralizar a B.1.617.1 em alguma extensão.


Já um estudo preprint publicado esta semana na plataforma bioRxiv (Ref.9) investigou pseudovírus carregando a proteína S e/ou mutações específicas das variantes B.1.617 e B.1.618, buscando quantificar a resistência dessas variantes contra anticorpos induzidos por cepas prévias, incluindo as vacinas mRNA-baseadas (Pfizer e Moderna). Os pesquisadores encontraram uma moderada maior resistência (2,5 vezes maior) dessas variantes contra os anticorpos neutralizantes elicitados por infecção natural ou pelos imunizantes, sugerindo que as atuais vacinas sendo empregadas ao redor do mundo ainda permanecem protetivas contra a B.1.617 e a B.1.618.


Apesar desses estudos preliminares trazerem relativo conforto, seus resultados reforçam a importância das taxas de vacinação e das medidas não-farmacológicas de controle epidêmico, como o uso de máscaras e de distanciamento físico entre as pessoas. Enquanto existir populações suscetíveis, mais o vírus irá infectar, se replicar e acumular mutações. Além disso, o descontrole epidêmico facilita a incorporação de mais mutações em variantes de preocupação. Isso é ainda mais importante no Brasil, onde o SARS-CoV-2 ainda se espalha sem controle e onde a única vacina disponível na prática (CoronaVac) possui uma eficácia global (proteção contra COVID-19 sintomática) bem menor do que aquelas mRNA-baseadas - e mais: a maioria dos Brasileiros já vacinados tomaram apenas a primeira dose.


> No México, a linhagem B.1.1.519, trazendo três mutações na proteína S (T478K, P681H, e T732A), se tornou rapidamente dominante no primeiro trimestre deste ano, e também acende novo alerta internacional (Ref.10).


> Boa parte das mutações (deleções, substituições, edições endógenas, recombinações) do SARS-CoV-2 e de outros vírus ocorre durante o processo de transcrição e replicação do RNA viral (via complexo replicase–transcriptase), onde erros acabam ocorrendo na formação da sequência genética, como a introdução de uma letra/base nitrogenada errada (A, G, C ou U). Porém, evidências mais recentes sugerem que danos (ex.: oxidação) e edições endógenas (ex.: enzimas antivirais do hospedeiro) são a forma dominante de mutações do SARS-CoV-2 intra-hospedeiro, resultando em típicas assimetrias na cadeia genética do vírus.  


REFERÊNCIAS

  1. https://www.bbc.com/news/world-asia-india-57154564
  2. https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2021/05/21/o-que-se-sabe-sobre-o-navio-que-trouxe-primeiros-casos-da-variante-indiana-de-covid-ao-brasil.ghtml
  3. https://saude.rs.gov.br/vigilancia-do-rs-recebe-comunicado-de-casos-na-argentina-de-variante-indiana-do-coronavirus
  4. https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/cases-updates/variant-surveillance/variant-info.html
  5. https://science.sciencemag.org/content/early/2021/05/19/science.abh1139
  6. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0022283621002692
  7. https://www.nature.com/articles/d41586-021-01274-7
  8. https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2021.05.14.444076v1.full.pdf
  9. https://www.bmj.com/content/373/bmj.n1203/rr-0
  10. https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2021.05.18.21255620v1

Variante Indiana chegou no Brasil: o que sabemos sobre essa cepa? Variante Indiana chegou no Brasil: o que sabemos sobre essa cepa? Reviewed by Saber Atualizado on maio 21, 2021 Rating: 5

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