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Cientistas descobrem flor que cheira como um inseto morto para atrair moscas


Em um estudo publicado no periódico Frontiers in Ecology and Evolution (1), pesquisadores reportaram que a planta Aristolochia microstoma usa um truque até o momento não-descrito na literatura acadêmica visando efetiva polinização: suas flores emitem um cheiro fétido-mofado imitando o cheiro de insetos em decomposição. Mosquitos do gênero Megaselia (família Phoridae) provavelmente são atraídos por esse cheiro enquanto procuram por corpos de insetos para a realização do acasalamento e deposição de ovos. Quando entram na flor, essas moscas acabam ficando presas e primeiro polinizam os órgãos sexuais femininos, antes se serem cobertas com pólen dos órgãos masculinos. A flor, então, libera seu polinizador sem danos.


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Polinização visando enganar o agente polinizador evoluiu em 4-6% das angiospermas (plantas que produzem flores) e depende da inabilidade dos polinizadores de distinguir entre um verdadeiro recurso (ex.: parceiro sexual, locais de reprodução, alimento) e a flor/inflorescência que imita a recompensa. Polinizadores são ludibriados por flores enganosas através de sofisticados traços olfativos, visuais e táteis. Em tais sistemas, insetos da ordem Diptera (em especial moscas e varejeiras) são polinizadores comuns. Duas espécies notáveis nesse sentido estão também entre as maiores flores do mundo: Amorphophallus titanum e Rafflesia arnoldii. Ambas liberam um forte odor de carne podre visando atrair insetos como moscas (Ref.2-3).





Outro exemplo notável de polinização enganosa envolvendo moscas é representado pelo gênero Aristolochia (Aristolochiaceae), o qual engloba aproximadamente 500 espécies nativas de regiões tropicais e subtropicais. Para assegurar polinização cruzada, essas plantas evoluíram elaboradas estruturas micro- e macromorfológicas, permitindo a captura, retenção e liberação de insetos. Polinizadores entram na flor na fase feminina através do tubo, onde tricomos curvados para baixo guiam os insetos até a utrículo, prevenindo-os de escapar. Os polinizadores aprisionados acabam então depositando pólen - caso tenha sido previamente adquirido de outra flor - sobre os lobos estigmáticos antes da flor entrar na fase masculina. No início da fase masculina o pólen é liberado, mas os tricomos aprisionadores ainda bloqueiam a saída, antes deles finalmente encolherem e permitirem os polinizadores de deixar a armadilha, carregados com pólen.


Devido aos frequentemente óbvios e fortes cheiros exalados na fase feminina, muitos cientistas têm concordado que as flores do gênero Aristolochia atraem seus polinizadores via odor floral. Esses cheiros, no geral, englobam características odoríferas de fezes, plantas ou fungos em decomposição, ou de cadáveres.


Entre as espécies de Aristolochia, temos a A. microstoma, endêmica da Grécia, e a qual traz características morfológicas e de apresentação das flores únicas nesse gênero. O membro das pequenas e roxo-amarronzadas flores é reduzido a um pequeno bico ou ausente, e a entrada do tubo floral é reduzida a um pequeno poro, responsável pelo nome da espécie. Enquanto a maioria das espécies de Aristolochia dispõem suas flores acima do chão, a A. microstoma apresenta sua flores próximo ou parcialmente enterradas ao chão, entre folhas caídas ou entre rochas, frequentemente escondidas da visão de cima. Além disso, a orientação do tubo floral é horizontal, ao invés da orientação vertical observadas nas outras espécies.



Nesse sentido, especula-se que os polinizadores da A. microstoma são representados por pequenos artrópodes vivendo próximo do chão ou entre as folhas caídas, porém, essa questão ainda tem permanecido pouco esclarecida. Seriam os polinizadores dessa espécie artrópodes terrestres ou voadores? O cheiro exalado pelas flores tenta imitar qual tipo de recurso?


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No novo estudo, os pesquisadores buscaram registrar os visitantes e os polinizadores da A. microstoma, e analisar os odores florais emitidos em três populações naturais da espécie. Para isso, um total de 1457 flores (1044 na fase feminina e 413 na fase masculina) foram coletadas para serem analisadas em laboratório, incluindo análises genômicas e caracterização química de compostos voláteis via cromatografia de gás acoplada com espectrometria de massa (GC/MS).


Os resultados das análises mostraram que a A. microstoma não é polinizada, como antes sugerido, por artrópodes terrestres, mas por moscas, como também ocorre com todas as outras espécies de Aristolochia estudadas até o momento. Dos 25 polinizadores efetivamente identificados, 24 pertenciam ao megadiverso gênero Megaselia, e o restante ao gênero Conicera (C. similis). Porém, enquanto moscas das famílias Sciaridade e, em menor extensão, Sphaeroceridae, eram frequentemente encontradas nas flores de A. microstoma, não foi possível caracterizá-los como polinizadores. Isso também é observado em outras flores do gênero Aristolochia, onde várias espécies de moscas são atraídas pelos cheiros exalados, mas apenas um número limitado delas de fato realizam a função de polinização.


 

Em relação aos compostos voláteis odoríferos da A. microstoma, as análises mostraram que esses eram dominados por oligossulfetos - já comumente presentes em outras flores com cheiro de putrefação - e alquilpirazinas, raras entre flores. Entre as alquilpirazinas, o principal composto exalado mostrou ser a 2,5-dimetilpirazina, raramente encontrada em flores saprófagas. Altas concentrações de oligossulfetos e de 2,5-dimetilpirazina é uma novidade entre as plantas. Devido à ausência de 2,5-dimetilpirazina em carcaças de vertebrados e em fezes de carnívoros, ou feromônios de insetos, e à alta similaridade dessa mistura de compostos com a mistura volátil liberada por besouros mortos, os pesquisadores concluíram que o cheiro exalado pela A. microstoma busca imitar o cheiro de cadáveres de invertebrados (talvez em particular insetos).


Assim, no geral, a estratégia da A. microstoma é exalar pelas flores odores imitando o cheiro de insetos mortos - truque inédito entre as plantas - e atrair moscas que normalmente depositam ovos nesse tipo de cadáver, este o qual serve de alimento para as larvas que eventualmente irão eclodir desses ovos.


REFERÊNCIAS

  1. https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fevo.2021.658441/full
  2. https://www.cabdirect.org/cabdirect/abstract/20183199276 
  3. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0305197820300077

Cientistas descobrem flor que cheira como um inseto morto para atrair moscas Cientistas descobrem flor que cheira como um inseto morto para atrair moscas Reviewed by Saber Atualizado on maio 23, 2021 Rating: 5

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