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Descoberta espécie de enguia elétrica na Amazônia com um choque de até 860 V


- Atualizado no dia 5 de fevereiro de 2026 -

Um estudo liderado pelo pesquisador do Museu de Zoologia da USP, Naércio Menezes, e publicado em 2019 no periódico Nature Communications (1), revelou que existem pelo menos três espécies de enguias elétricas (Electrophorus spp.), não apenas uma única como até o momento era assumido. Entre as três novas espécies descritas pelo estudo, uma delas pode liberar uma descarga elétrica de até 860 volts (V), a mais forte já registrada em qualquer animal. Para comparação, a tensão elétrica na tomada de força dos domicílios varia de 110 V a 220 V.


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As enguias elétricas são peixes da família Gymnotidae que são mais próximo relacionados aos Bagres (ordem Silurtiformes) e às carpas (família Cyprinidae) do que com outras famílias de reais enguias (ordem Anguilliformes). Nativos do México e da América do Sul, os Gymnotiformes (ordem à qual pertence a família Gymnotidae) são encontrados quase que exclusivamente em habitats de água doce, e são em grande parte animais de hábitos noturnos. Existem atualmente cerca de 250 espécies de Gymnotiformes descritas, englobadas em 34 gêneros e 5 famílias, e todas são capazes de produzir fracos campos elétricos para comunicação e para a navegação. A maioria possui olhos bem pequenos.

As enguias elétricas em específico - também chamadas de poraquês - podem alcançar até 2,5 metros de comprimento, e são as únicas que conseguem produzir fortes descargas elétricas, geradas a partir de três órgãos especiais (1). A produção de fortes choques elétricos visa defesa e predação. Enguias elétricas também produzem descargas fracas para a discriminação de objetos e presas no ambiente - similar à ecolocalização de morcegos. Esses peixes também usam pulsos de alta tensão para localizar de forma precisa e rápida presas muito ágeis (Ref.2).
 
Sentidos e descargas da enguia elétrica. (a) Enguia colorida para mostrar os eletroreceptores (magenta) e os canais mecanorreceptores-neuromastos (azul). (b) A saída fraca de baixa tensão usada para eletrolocalização e a saída de alta tensão e alta frequência usada como arma, paralisando presas - em específico outros peixes - e também repelindo potenciais predadores. (c) Ilustração esquemática da eletrolocalização baseada na convergência das linhas do campo elétrico na pele da enguia (seta). Ref.2

No novo estudo, os pesquisadores analisaram 107 espécimes coletadas em diferentes partes da floresta Amazônica no Brasil, no Suriname, na Guiana Francesa e na Guiana. Inicialmente, foi sequenciado o gene mitocondrial citocromo C oxidase I (COI), para então sequenciar outros nove genes nucleares e mitocondriais e realizar várias outras análises genéticas comparativas. Somado à análise genética, os pesquisadores investigaram características ecológicas e morfológicas das diversas enguias coletadas.

O formato corporal desses animais é altamente conservado, não tendo mudado muito ao longo dos últimos ~10 milhões de anos de evolução. Apenas alguns pequenos detalhes da morfologia externa mostrou distinguir as enguias umas das outras, incluindo cores da pele e formato da cabeça. Para encontrar possíveis distinções marcantes entre os espécimes investigados, uma análise integrada da morfologia, genética e ecologia foi necessária, além da inclusão inédita de um dado extra: a capacidade de geração elétrica.

O resultado das análises revelou três distintas espécies de enguias elétricas: E. electricus, E. varii e E. voltai. A E. voltai é a que consegue produzir a maior tensão elétrica: até 860 V (2). O recorde anterior registrado era de 650 V. O nome dessa espécie faz homenagem ao Físico Alessandro Volta, cientista que inventou a bateria elétrica em 1799, baseando seu design justamente na enguia elétrica.


Antes da reclassificação taxonômica, todas as enguias elétricas eram referenciadas como uma única espécie: Electrophorus electricus. Essa espécie foi originalmente descrita pelo naturalista sueco Carl Linnaeus em 1766 como Gymnotus electricus e posteriormente revisada como Electrophorus electricus por Theodore Gill em 1864.

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(1)  Além do órgão elétrico potente compartilhado pelos três grupos (conhecido como órgão elétrico principal em enguias elétricas), as enguias elétricas também desenvolveram dois órgãos elétricos adicionais, porém mais fracos: o órgão elétrico de Hunter e o órgão elétrico de Sachs, utilizados principalmente para perceber o ambiente ao redor e para comunicação. O órgão de Hunter produz descargas de baixa tensão (~10 V nos adultos) para eletrolocalização e comunicação. O órgão de Sachs produz descargas intermediárias (~30 V) com funções desconhecidas. E o órgão principal produz descargas com tensão acima de 300 V. Esses órgãos estão localizado na região ventral-lateral da cauda. Para mais informações sobre o desenvolvimento e a anatomia desses órgãos, acesse a Ref.5.
 
Órgãos elétricos nos poraquês. a) Espécime de Electrophorus voltai. b) Microtomografia computadorizada com contraste de iodo dos órgãos elétricos do E. voltai: órgão principal (verde), órgão de Sach (azul) e órgão de Hunter (vermelho). Os músculos epaxiais pós-viscerais são mostrados (rosa). Ref.7

(2) Estudos anatômicos e eletrofisiológicos têm revelado que as células de descarga, especificamente conhecidas como eletrócitos, constituem uma parte substancial do corpo dos peixes elétricos. O arranjo único dessas células, semelhante a uma bateria em série, dentro dos órgãos elétricos é o fator fundamental que permite a esses peixes elétricos descarregar instantaneamente centenas de volts de eletricidade. Por essa razão, o comprimento do corpo dos peixes elétricos determina a tensão que eles podem gerar. Quando mais longas, mais poderoso o potencial de choque.

Curiosidade: Um estudo recente reportou o primeiro caso de parasitismo envolvendo carrapatos e peixes. No caso, dois carrapatos fêmeas do gênero Amblyomma sp. foram encontrados parasitando uma enguia elétrica da espécie Electrophorus varii. Provavelmente um caso de parasitismo oportunístico. Como regra geral, carrapatos parasitam vertebrados terrestres. Porém, esses parasitas são capazes de sobreviver debaixo d'água por longos períodos. Ref.6
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NICHOS ECOLÓGICOS

O E. electricus habita uma área bem ao norte da Amazônia, conhecida como Escudo da Guiana, a qual engloba as regiões norte dos estados Brasileiros do Amapá, Amazonas e Roraima, da Guiana, da Guiana Francesa, e do Suriname. Regiões de estudo são caracterizadas por serem relativamente elevadas, excedendo 300 metros em altitude. Os sistemas fluviais nessas regiões possuem fluxos rápidos de água e quedas d´água, possui elevada oxigenação (>3 mg/L), fundos rochosos ou arenosos, e baixas quantidades de sais dissolvidos (condutividade <30 µS/cm).

O E. voltai habita o Escudo Brasileiro, região que engloba o sul do Pará e do Amazonas, assim como Rondônia e o norte do Mato Grosso. As características dessas regiões de Escudo favorecem ambas as espécies (E. electricus e E. voltai), as quais possuem cabeças chatas que ajudam na movimentação em meio a fluxos mais rápidos de água. A quantidade reduzida de sais dissolvidos torna a água eletricamente menos condutiva, o que pode ajudar a explicar porque a E. voltai evoluiu a capacidade de produzir uma tensão elétrica tão forte.

Em contraste, a E. varii habita a parte mais baixa da Bacia Amazônica, vivendo em rios túrbidos com relativas baixas quantidades de oxigênio dissolvido e fundos arenosos ou lamacentos. Além disso, a relativa grande quantidade de sais dissolvidos aumenta a condutividade da água, favorecendo a propagação das descargas elétricas. De fato, essa espécie gera tensões entre 151 V e 572 V, bem menores do que a da E. voltai.

As análises genéticas sugerem que as três espécies divergiram duas vezes. A primeira foi no Mioceno, há aproximadamente 7,1 milhões de anos, quando elas se separaram do ancestral comum. Então, no Plioceno, há aproximadamente 3,5 milhões de anos, a E. voltai e a E. electricus alcançaram o estado morfológico e genético mais próximo do atual. É provável que os diferentes ambientes na Bacia Amazônica (regiões de escudo e planícies alagadas) atuaram de forma decisiva para essas divergências evolutivas.

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> Análises genômicas mais recentes e compreensivas apontam que no contexto do desenvolvimento embrionário, muitos fatores regulatórios no genoma dessas enguias - relacionados a neurotransmissores e vias de sinalização clássicas - foram significativamente expandidos no processo evolutivo, contribuindo potencialmente para a geração de eletricidade de alta tensão. O gene scn4aa - relacionado a canais de sódio - parece ter um papel crítico na geração de eletricidade de alta tensão e é altamente expresso no órgão elétrico principal. Esses peixes possuem 26 cromossomos. Ref.3-4
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O CHOQUE DA ENGUIA É LETAL?

Apesar da alta tensão elétrica gerada, a descarga elétrica das enguias possui baixa amperagem (até 1 amp), ou seja, não é necessariamente perigosa para os humanos. Em comparação, o choque a partir de uma fonte de energia típica das nossas residências é de 10 ou 20 amp, e, nesse caso, mesmo com uma tensão elétrica bem menor, o choque pode ser letal dependendo do estado da pessoa. A amperagem mede a quantidade de carga elétrica transportada em função do tempo (Coulomb/s). Ou seja, mesmo cargas sendo transportadas com alta energia nas enguias elétricas, elas não estão em grande quantidade.

As enguias elétricas, no entanto, não emitem uma corrente direta, mas uma corrente alternada (em pulsos), com a carga sendo depletada após um forte choque. O órgão elétrico leva algum tempo para recarregar. No entanto, enquanto um grupo de enguias elétricas dificilmente irá matar diretamente uma pessoa saudável, um encontro desse pode ser muito perigoso para pessoas com problemas cardíacos. Além disso, como o ambiente do ataque será aquático, as chances de um afogamento são altas.

De fato, em um relato de caso de 1997, no norte de Tocantins, Brasil, um homem de 23 anos de idade acabou morrendo afogado em um rio após aparente convulsão e rápida imobilização causada pelo choque de uma enguia elétrica (Ref.7).

Durante choques defensivos, várias descargas de alta tensão são produzidas em rápida sucessão pelas enguias elétricas. Essas descargas induzem paralisia muscular ao ativar os nervos motores do animal alvo e forçar seus músculos esqueléticos a se contraírem involuntariamente. 

Em situações defensivas, a enguia elétrica pode também "escalar" o animal alvo, parcialmente fora da água, para maximizar o efeito de imobilização. Notavelmente, a frequência de pulso durante essas descargas (~300-500 Hz) é otimizada evolutivamente no sentido de maximizar a capacidade de causar contrações musculares.

Nesse sentido, os choques defensivos das enguias elétricas podem causar contrações musculares severas em humanos, representando um risco de afogamento e podendo levar à rabdomiólise e à perda parcial de funções motoras (paresia).

> Os pulsos defensivos de alta tensão dos poraquês são curtos (~1-2 ms) e separados por um intervalo mais longo de tempo (~2-3 ms). Portanto, não são capazes de causar queimaduras na pele.


Leitura recomendada
  1. de Santana et al. (2019). Unexpected species diversity in electric eels with a description of the strongest living bioelectricity generator. Nature Communications 10, 4000. https://doi.org/10.1038/s41467-019-11690-z
  2. Catania, K. (2015). Electric eels use high-voltage to track fast-moving prey. Nature Communications 6, 8638. https://doi.org/10.1038/ncomms9638
  3. Qi et al. (2025). Telomere-to-telomere genome assembly of Electrophorus electricus provides insights into the evolution of electric eels, GigaScience, Volume 14, giaf024. https://doi.org/10.1093/gigascience/giaf024
  4. Wang et al. (2025). A chromosome-level genome assembly of Electrophorus voltai, a species of electric eel. Scientific Data 12, 1367. https://doi.org/10.1038/s41597-025-05720-3 
  5. Iida et al. (2025). Ventral-to-dorsal electrocyte development in electric organs of electric eel (Electrophorus). Developmental Biology, Volume 524, Pages 87-96. https://doi.org/10.1016/j.ydbio.2025.05.003
  6. Chong, K. L. (2026). An eclectic encounter: ticks feeding on an electric eel and the untapped potential of natural history collections, Journal of Medical Entomology, Volume 63, Issue 1, tjaf148. https://doi.org/10.1093/jme/tjaf148
  7. Júnior et al. (2025). Two Clinical Records of Human Injuries with a Death caused by Electric Eels Electrophorus spp. Gill, 1864. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, 58. https://doi.org/10.1590/0037-8682-0007-2025

Descoberta espécie de enguia elétrica na Amazônia com um choque de até 860 V Descoberta espécie de enguia elétrica na Amazônia com um choque de até 860 V Reviewed by Saber Atualizado on setembro 14, 2019 Rating: 5

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