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Preocupante estudo é publicado mostrando passo a passo como recriar um vírus primo da varíola


Nessa última sexta-feira, um estudo foi publicado no PLOS ONE mostrando o passo a passo para a síntese de uma quimera do vírus horsepox (HPXV). Basicamente, o virologista David Evans, da Universidade de Alberta, Canadá, e o pesquisador associado Ryan Noyce conseguiram obter fragmentos de DNA quimicamente sintetizados via internet,  juntaram tudo com outras partes genéticas e conseguiram produzir um vírus capaz de infectar células e de se reproduzir.

O estudo lançou um alarme em várias agências de saúde ao redor do mundo, já desde o seu anúncio de publicação em julho do ano passado. Muitos pesquisadores não veem a necessidade do estudo e afirmam que terroristas agora possuem uma potencial receita para construir um vírus da varíola (smallpox), parente próxima do HPXV, a qual é uma grave doença altamente infecciosa que conseguiu ser extinta em 1980 com a ajuda das vacinas. E o pior: hoje a maioria das pessoas não possuem mais proteção contra o vírus, já que a vacinação terminou na década de 1980. As últimas amostras preservadas de varíola encontram-se em segurança máxima em depósitos secretos na Rússia e nos EUA.

Porém, os pesquisadores responsáveis pelo novo estudo dizem que esse não foi o objetivo, e que os benefícios na divulgação da nova tecnologia superam os riscos.


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MOTIVAÇÃO DO ESTUDO

Segundo os pesquisadores, existe - de fato - uma dúvida sobre a origem da primeira vacina: era de um vírus de vaca ou de cavalo? Aliás, o próprio criador da primeira vacina, no século XVIII, se perguntava a mesma coisa.

 Edward Jenner, em 1796, testou a hipótese que as ordenhadoras da região do interior da Inglaterra não contraíam varíola pois eram protegidas pela infecção que apresentavam nas mãos contraída das vacas (supostamente o vírus cowpox). Ele retirou material da lesão da ordenhadora Sarah Nelmes e inoculou em uma criança. Semanas depois, ele inoculou no braço da criança material oriundo de lesão de varíola e a criança não desenvolveu a doença. Após outras tentativas com sucesso, ele publicou seus achados em um impactante estudo de 1798. Esse extrato para a imunização recebeu o nome de 'vírus vaccnia', em referência ao termo em latim vaccinae que denota a origem bovina do material. O mundo estava testemunhando a primeira vacina (o nome é em homenagem ao 'vírus vaccnia'). Esse nome mais tarde passou a denominar um distinto vírus usado para a produção da vacina contra a varíola, o Vaccinia (VACV) - um vírus do gênero Orthopoxvirus da família Poxviridae que, em seres humanos, ocasionalmente gera uma doença não-letal, pustular e localizada -, o qual se mostrou distinto daquele utilizado por Jenner.

Porém, pesquisas recentes mostram que a vacina da varíola de Jenner parece ter se originado na verdade de cavalos e análises moleculares mostram que a moderna cepa do vírus VACV compartilha uma ancestralidade comum com o vírus HPXV. O próprio Jenner notava que cuidadores de cavalo nas fazendas de onde tinha extraído sua vacina contra a varíola às vezes iam ordenhar vacas também, podendo haver a possibilidade de que um vírus de cavalo estava sendo passado para as vacas, e que as infecções de onde o material de imunização estava sendo retirado poderiam estar sendo causadas por esse vírus, e não pelo cowpox.

Bem, dadas supostas preocupações com a periculosidade das modernas vacinas VACV (pequenos casos de infecções com o vírus, mas insignificantes perto dos benefícios tragos contra a varíola, especialmente que o VACV é não-letal), os pesquisadores ficaram questionando se uma vacina baseada no vírus HPXV seria uma alternativa ainda mais segura e efetiva a ser utilizada em possíveis casos futuros de epidemia da varíola. Segundo a hipótese dos pesquisadores, nesses últimos 200 anos que o VACV vem sendo cultivado em animais para a produção de vacinas para humanos contra a varíola, cepas mais resistentes podem ter evoluído e dado origem a patógenos com maior poder de infecção (as vacinas são com o vírus vivo). Além disso, estudos anteriores já tinham mostrado que o HPXV de fato permite a imunização contra a varíola.

Contudo, o HPXV pode estar extinto na natureza e apenas um único espécime foi analisado e sequenciado. Em outras palavras, muito pouco se saber sobre suas propriedades biológicas, e a doença pode ter desaparecido. Nessa situação desafiadora, os pesquisadores resolveram replicar o HPXV sinteticamente, a partir da síntese do seu genoma.


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PROCESSO DE CRIAÇÃO

A síntese de genes revolucionou o estudo de microorganismos, incluindo de vírus como o ΦX174 e o da gripe (influenza). No entanto, os vírus da família Poxviridae (como os da varíola e o HPXV) representam um desafio bem difícil por causa do seu tamanho (muitos excedem os 200 kbp) e da dificuldade em clonar características específicas, como seus distintos telômeros do tipo hairpin. Além disso, esses vírus não podem ser simplesmente recuperados de células transfectadas, já que o DNA não é infeccioso.

O que se sabe há um bom tempo é que uma célula infectada com um poxvírus pode reativar um segundo, se esse último foi inoculado inerte ao danificar as partículas ou extraindo o DNA. Também pode-se realizar a reativação em células que suportam o crescimento de diferentes vírus auxiliares e reativados, e então usar diferenças físicas do hospedeiro para a separação dos vírus.

Os pesquisadores responsáveis pelo novo estudo já tinham previamente mostrado que células infectadas com o vírus SFV (Shope fibroma) ofereciam uma vantagem nesse processo de reativação, enquanto também forneciam um ambiente capaz de reunir um VACV completo a partir de fragmentos de DNA desse último.

Com isso, os pesquisadores conseguiram recriar uma réplica sintética e quimérica do HPXV com os telômeros hairpins do VACV, ao resgatá-lo de células infectadas com o SFV usando fragmentos quimicamente sintetizados. O novo scHPXV produziu menores placas e menos placas secundárias in vivo. Em ratos, o scHPXV foi menos virulento comparado com as cepas utilizadas na vacina de VACV, mas ainda forneceu proteção contra uma letal dose de VACV.

De acordo com a conclusão do estudo, esses achados suportam o desenvolvimento de scHPXV como uma nova base de vacina mais eficiente e segura contra a varíola. Também fornece novas possiblidades virais para terapias genéticas. Além disso, a nova tecnologia permite a criação de outros poxvírus se os vírus auxiliares e células de suporte corretos forem reunidos.

Em pronunciamento separado, os pesquisadores também apontam que o novo estudo comprova que a possiblidade prática de criação sintética de um poxvírus já é uma realidade, o que cria um maior alerta de vigilância para outros grupos mais suspeitos ou criminosos de pesquisa que já podem estar também em uma linha de estudo similar, ou até mesmo já ter conseguido similar sucesso.

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RISCOS OU BENEFÍCIOS?

Porém, outros pesquisadores não veem a necessidade de mais uma vacina contra a varíola, porque a existente hoje já é bastante segura e eficaz. Além disso, segundo eles, o real problema é que a divulgação pública do passo-a-passo de engenharia genética com esse propósito pode se mostrar muito perigoso. Já outros especialistas não veem essa desnecessidade, e corroboram a importância do novo estudo para o avanço científico na área. Eles acrescentam ainda que conseguir os "ingredientes" é muito difícil, especialmente os fragmentos de DNA, os quais são cuidadosamente protegidos pelas empresas responsáveis por suas sínteses.

A única coisa que os pesquisadores consensualmente concordam é no segundo argumento: mandar um alerta para o mundo ao mostrar que a tecnologia para fabricar letais vírus já está disponível.

De qualquer forma, é mais um avanço tecnológico que pode se mostrar muito importante em pesquisas diversas. Bem, mas se a liberação pública dessa forma é responsável ou não, aí já é outra história. Uma coisa é certa: uma hora a receita vazaria.


Publicaçáo do estudo: PLOS ONE

Referência adicional: Science

Preocupante estudo é publicado mostrando passo a passo como recriar um vírus primo da varíola Preocupante estudo é publicado mostrando passo a passo como recriar um vírus primo da varíola Reviewed by Saber Atualizado on janeiro 21, 2018 Rating: 5

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