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Cavalos podem cheirar o medo em humanos e isso altera o comportamento desses animais, aponta estudo

Figura 1. Almofada impregnada com o odor humano de medo, o odor humano de alegria ou sem odor algum é apresentada a um cavalo, durante experimentos do novo estudo.

  
Evidências recentes têm sugerido que sinais olfativos podem estar envolvidos em interações entre indivíduos de espécies distintas, facilitando comunicação emocional interespecífica. Nesse sentido, pesquisadores e etólogos franceses resolveram investigar se interações desse tipo ocorrem entre cavalos e humanos, através de um estudo experimental publicado recentemente na PLoS One (Ref.1). Os experimentos envolveram a exposição de suor humano a cavalos (Equus ferus), com os comportamentos e mudanças fisiológicas subsequentes desses equídeos sendo observados e analisados pelos cientistas. Os cavalos expostos ao suor de humanos em estado de medo exibiram maiores níveis de comportamento temerário, ficavam menos inclinados a interagir com humanos, e, no geral, adotavam um estado emocional de medo.


"Existe uma comunicação química das emoções, e ela ultrapassa a barreira das espécies," disse em entrevista a etóloga e coautora do novo estudo, Léa Lansade (Ref.2). "O estudo mostra que quando expostos aos odores de humanos que sentem medo, os cavalos, por sua vez, exibem respostas de medo por meio de um mecanismo de contágio emocional."


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O olfato é um dos sentidos mais primitivos no reino animal e provavelmente representa a modalidade sensorial mais difundida para a comunicação entre os animais - desde insetos até mamíferos - e servindo a uma ampla gama de funções biológicas. A função mais essencial é a reprodução, onde o olfato desempenha um papel crucial, desde a atração sexual e o reconhecimento de parceiros até o reconhecimento entre mãe e filhotes. Isso realça a importância da comunicação química para a aptidão e a sobrevivência. 


Além disso, o olfato também está envolvido na busca por recursos, com trilhas de feromônios produzidas por formigas para guiar indivíduos da mesma espécie em direção a fontes de alimento, e na orientação espacial, com lobos sinalizando campos biológicos por meio de marcação urinária.


Por fim, é apontado que o olfato pode estar envolvido na comunicação emocional, uma vez que compostos odoríferos diversos são secretados em situações de perigo, frequentemente associadas ao medo e ao estresse. Por exemplo, em vacas e porcos, níveis aumentados de estresse (ex.: aumento de cortisol circulante e latência alimentar) são observados quando os animais são expostos à urina de membros da mesma espécie.


Em humanos, pesquisas recentes sobre a comunicação olfativa das emoções destacaram o papel do suor produzido pelas glândulas apócrinas nas axilas como portador de informações emocionais (1). Compostos presentes no suor, como adrenalina, androstadienona ou ácido hexadecanoico, foram sugeridos como potenciais portadores dessas informações emocionais. E múltiplos estudos têm demonstrado que tais odores podem influenciar o estado emocional do receptor. Por exemplo, sinais químicos associados ao medo ou à alegria em humanos parecem provocar expressões faciais correspondentes de medo ou alegria em indivíduos expostos a eles.


Nesse último ponto, o mesmo pode ocorrer entre espécies distintas? Evidência experimental é limitada nesse sentido, mas parecem confirmar essa hipótese. Por exemplo, cães, vacas e camundongos parecem responder e discriminar odores humanos associados a diferentes estados emocionais.


No novo estudo, os pesquisadores coletaram odores relacionados ao medo e à alegria de 30 voluntários humanos. Para isso, colocaram algodão sob as axilas dos participantes enquanto assistiam a vídeos de 20 minutos que retratavam situações de medo (filme "A Entidade", de 2012) ou alegria (clipes diversos de comédia e musicais).


Em seguida, os pesquisadores apresentaram a 43 cavalos um algodão impregnado com o odor humano do medo, o odor humano da alegria ou nenhum odor (controle). Mediram o comportamento, a frequência cardíaca e os níveis de cortisol (hormônio do estresse) na saliva durante vários testes:


- dois testes de interação (um no qual o experimentador escovava o cavalo e um teste de aproximação no qual o experimentador permanecia em uma área definida para observar se o cavalo se aproximava);


- dois testes de medo (um teste de sustos no qual um guarda-chuva era aberto repentinamente próximo ao cavalo e um teste no qual um objeto desconhecido era colocado perto do cavalo).

 

Figura 2. Aparato experimental para expor os cavalos a odores humanos. Uma focinheira de lycra (2) com almofadas de algodão grampeadas na frente das narinas do cavalo (3) foi fixada ao cabresto (1). Ref.1

Cavalos expostos ao cheiro de medo humano exibiram níveis mais elevados de comportamento medroso e mostraram-se menos propensos a interagir com humanos. 


No teste de resposta repentina, os animais apresentaram reações mais intensas à abertura súbita de um guarda-chuva e relataram maior frequência de olhares fixos em objetos desconhecidos. Os batimentos cardíacos também mostraram estar mais elevados. 


Nos testes de interação, os cavalos tiveram menos contato físico com humanos, tanto no teste de aproximação quanto durante a escovação.


Os resultados apontaram que as respostas comportamentais e fisiológicas não eram uma simples reação ao cheiro, mas sugestivas de que os cavalos adotam o estado emocional de medo ao detectarem o "medo químico" dos humanos. Isso aponta um contágio emocional do medo por meio de sinais químicos entre duas espécies diferentes, humanos modernos (Homo sapiens) e cavalos domésticos. 


As reações observadas nos cavalos analisados podem ser espontâneas, derivadas de vias autonômicas que conectam receptores olfativos a reações e comportamentos emocionais (respostas inatas); ou podem resultar de associações formadas pelos cavalos entre alguns odores e as situações em que eles geralmente estão presentes (ex.: os cavalos podem ter associado odores emitidos por humanos com medo a contextos estressantes). De fato, é bem estabelecido que os cavalos associam algumas características de estímulos humanos (como a natureza de uma voz) à valência de interações concomitantes.


Embora esse fenômeno já tenha sido observado em cães, gatos, bovinos domésticos e bodes - através de pistas visuais, auditivas ou olfativas -, esta é a primeira vez que tal comunicação emocional é documentada em outra espécie animal. Em todos os caos, esses animais mostram maior preferência por emoções humanas positivas. Estaria o processo de domesticação envolvido nessa aparente ligação emocional entre humanos e outras espécies?


De qualquer forma, os resultados do estudo ainda precisam ser validados por outros estudos independentes.


REFERÊNCIAS

  1. Jardat et al. (2026). Human emotional odours influence horses’ behaviour and physiology. PLoS One, 21(1): e0337948. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0337948
  2. https://www.inrae.fr/en/news/smell-fear-influences-horse-behaviour

Cavalos podem cheirar o medo em humanos e isso altera o comportamento desses animais, aponta estudo Cavalos podem cheirar o medo em humanos e isso altera o comportamento desses animais, aponta estudo Reviewed by Saber Atualizado on fevereiro 08, 2026 Rating: 5

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