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Dar um pouco de cocô da mãe para o bebê nascido via cesárea parece ser benéfico à saúde

Bebês nascido por cesárea possuem um aumento de risco para o desenvolvimento futuro de várias doenças crônicas, como asma e alergias. Esse aumento de risco está ligado a deficiências microbióticas causadas pelo parto cesariano, com consequentes impactos no sistema imune. Agora, em um estudo piloto publicado no periódico Cell (1), pesquisadores provaram que é possível recuperar a microbiota deficiente de bebês de cesárea através do transplante de matéria fecal da mãe, reforçando a hipótese de que o orifício anal próximo do canal vaginal é uma característica anatômica positivamente selecionada durante a evolução dos vertebrados (mamíferos, no caso). 


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Atualmente, existem duas principais formas, comprovadas e eficazes, de melhorar a saúde da microbiota no trato intestinal. A primeira vem com uma dieta alimentar  equilibrada, rica, principalmente, em fibras (I). O consumo maior de verduras, frutas e alimentos integrais fornece uma rica e variada oferta de fibras alimentares e outros nutrientes essenciais à nossa boa saúde da flora intestinal. A segunda solução vem ganhando cada vez mais popularidade na prática médica: transfusão de microbiota fecal (TMF). 


(I) Leitura recomendada: A importância das fibras para a microbiota intestinal


Um microbioma alterado tem sido implicado na patogênese de várias desordens. A FMT refere-se à administração de microrganismos de um doador saudável para um paciente alvo com a intenção de modificar a microbiota desse último. A TMF tem se destacado particularmente no tratamento de infecção recorrente pela bactéria Clostridioides difficile, a qual tem crescido a proporções epidêmicas nas últimas décadas, com taxas de recorrência de 30-65% e falha na resposta a múltiplos antibióticos. Quando usada de forma sequencial, a FMT cura quase 80% dos pacientes com severa ou fulminante infecção pela C. difficile. E, recentemente, um robusto estudo conduzido pela Associação Americana Gastroenterológica (AGA) reportou que a TFM é segura e capaz de curar a infecção por C. difficile em 90% dos 259 pacientes analisados a curto, médio e longo prazo (II).


Além da infecção pela C. difficile, a FMT - a qual é geralmente realizada via colonoscopia ou endoscopia superior - está sendo usada experimentalmente no tratamento de outras doenças ligadas à microbiota, primariamente problemas gastrointestinais, mas também condições neurológicas, comportamentais e metabólicas. Evidências científicas mais recentes indicam que não só bactérias benéficas, como partículas virais (viroma) e fungos (micobioma) presentes nas fezes são responsáveis pela eficácia e pelo potencial terapêutico da técnica.


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> ATENÇÃO: Existem movimentos nas redes sociais incentivando as pessoas a realizarem por contra própria o transplante fecal de microbiota. Isso é altamente perigoso! No procedimento médico as fezes do doador são primeiro preparadas em laboratório e filtradas para a busca de potenciais patógenos, para só então serem injetadas no intestino do paciente. Em um estudo publicado em 2019 no periódico The New England Journal of Medicine (III), pesquisadores reportaram dois graves casos de bacteremia com uma cepa bacteriana resistente de Escherichia coli transmitida durante uma TMF, com um dos paciente indo a óbito. E detalhe: a TMF foi realizada em ambiente hospitalar e seguindo os protocolos de preparação recomendados - ou seja, uma falha na seleção do doador mesmo sob a supervisão de profissionais de saúde.

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A colonização microbiana dos recém-nascidos é um processo pivô que afeta a saúde futura do bebê. Apesar de frequentemente ser associada com o microbioma do canal vaginal, análises metagenômicas profundas e outras análises genéticas mais recentes têm mostrado que os primeiros colonizadores do intestino de bebês nascidos pela via vaginal são bactérias maternais fecais, principalmente membros dos gêneros Bifidobacterium e Bacteroides. Trabalhos clínicos anteriores já haviam tentado transferir para os bebês de cesárea a microbiota vaginal da mãe, mas sem resultados positivos em termos de corrigir o desbalanço microbiótico, porque as bactérias vaginais mostraram não ser capazes de colonizar o intestino de bebês. 


Após a cessamento do aleitamento materno, a microbiota fecal gradualmente se torna dominada principalmente pelo gênero anaeróbico Clostridia. Nesse sentido, é muito provável que o sistema biológico humano se adaptou em termos evolucionários a receber sinais microbianos específicos (janelas de oportunidade) durante seu desenvolvimento inicial fora do corpo da mãe para a programação metabólica e de imunidade recíproca.


A colonização natural microbiótica e, consequentemente, o desenvolvimento normal, podem sofrer distúrbios por práticas que previnem a transmissão de bactérias ou alteram a microbiota do bebê. Talvez o mais forte desses fatores - junto com ausência de aleitamento materno e uso de antibióticos - é o parto via cesárea. Essa prática efetivamente elimina a possibilidade de transferência vertical natural das bactérias intestinais da mãe para o bebê durante o parto, resultando em desvios anômalos no desenvolvimento da microbiota, mais notavelmente nos primeiros 6 meses de vida. Diversos problemas crônicos de saúde estão ligados a essa prática.


Os partos via cesárea estão em notável aumento ao redor do mundo, afetando mais de 50% dos nascimentos em algumas regiões. No Brasil, a cesariana já é uma epidemia e lidera o ranking mundial. Nosso país é o único do mundo onde mais de 55% dos partos são feitos por via cirúrgica! Quando analisamos as redes de saúde separadamente, a privada realiza  mais de 80% dos partos via cesárea e, na pública, são cerca de 40%, sendo que a OMS (Organização Mundial de Saúde) orienta que o percentual não deve ultrapassar os 30% (IV). 


(IV) Para mais informações, acesse: Parto por cesárea: Preocupante epidemia no Brasil 



Para testar se o transplante de microbiota fecal (TMF) poderia ser uma ferramenta terapêutica para compensar os efeitos deletérios na microbiota dos bebês nascidos via cesárea, pesquisadores da Universidade de Helsinki, Finlândia, resolveram selecionar 7 mães com recém-nascidos - seguindo um rigoroso filtro para prevenir transferência de patógenos - que realizaram o parto de cesariana. Todas as mães deram a luz na idade gestacional de 37 semanas (±3) e estavam amamentando o bebê há pelo menos 2 meses. 


No total, foram 5 bebês do sexo feminino e 2 bebês do sexo masculino, os quais receberam o transplante de fezes das suas respectivas mães. A matéria fecal foi preparada (diluída) junto com 5 mL do primeiro leite de amamentação das mães e dado para os bebês tomarem. Todos os bebês eram saudáveis e receberam 3,5 mg de matéria fecal, com exceção de um bebê (M6) que recebeu 7 mg. Análises laboratoriais indicaram que uma única dose continha aproximadamente 700 mil a 1,6 milhões de células bacterianas vivas.


Após a intervenção da TMF materna, o microbioma dos 7 bebês foi comparado com o microbioma de 29 bebês nascidos via vaginal e com 18 bebês nascidos via cesárea


Os resultados mostraram que os bebês no experimento desenvolveram uma microbiota intestinal similar àquela observada em bebês nascidos via parto normal (vaginal). Nenhum dos bebês mostrou complicações. Além disso, a TMF materna corrigiu a persistente falta das bactérias do gênero Bacteroides e atrasou o desenvolvimento do gênero Bifidobacterium. Por fim, os pesquisadores viram também mitigação de potenciais bactérias patogênicas oportunistas - como aquelas do gênero Enterococcus, Enterobacter e Klebsiella -, e as quais são comumente observadas em níveis preocupantes em bebês nascidos via cesárea.


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Segundo os pesquisadores, existe uma razão pra o orifício do canal vaginal ser próximo do orifício anal em todos os vertebrados - mesmo existindo o risco de maiores infecções vaginais (como de fato é observado entre as mulheres). Isso seria fruto de seleção natural, não apenas um evento aleatório, durante o processo evolutivo. Bebês recém-nascidos já seriam preparados para receberem alguma exposição das fezes maternas.


De fato, é bem estabelecido que a maioria das mulheres experienciam algum grau de movimento intestinal durante o parto. Esse mecanismo fornece uma potencial rota para facilitar a exposição de matéria fecal ao bebê na região perianal, que pode se manifestar de forma mais notável quando medidas de higiene não são tão estritas como no mundo Ocidental. Aliás, segundo os pesquisadores, em alguns países é comumente praticado um dia de jejum ou uma lavagem anal precedendo um parto vaginal, o que pode talvez afetar a transferência de microbiota da mãe para o feto.


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PORÉM, os pesquisadores também alertaram que o procedimento de TMF materna NÃO deve ser feito de forma caseira pelos pais, porque pode levar mais danos do que benefícios para os bebês. Durante as seleções de candidatos para os procedimentos no estudo, os pesquisadores reportaram que 29% das mães testaram positivo para micróbios patogênicos potencialmente nocivos para o bebê dependendo do nível de exposição, incluindo o vírus da herpes. E, seguindo esse último ponto, ainda não se sabe a dose ótima de exposição fecal. Mais trabalhos nessa área precisarão ser feitos para o desenvolvimento de protocolos seguros e efetivos.


(1) Publicação do estudo: https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(20)31089-8


(2) Referências adicionais:

  • https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/19490976.2020.1810531
  • https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1542356520300021
  • (II) https://www.gastrojournal.org/article/S0016-5085(20)35221-5/fulltext 
  • https://journals.lww.com/ajg/Abstract/2020/04000/Understanding_the_Scope_of_Do_It_Yourself_Fecal.19.aspx
  • (III) https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1910437

Dar um pouco de cocô da mãe para o bebê nascido via cesárea parece ser benéfico à saúde Dar um pouco de cocô da mãe para o bebê nascido via cesárea parece ser benéfico à saúde Reviewed by Saber Atualizado on outubro 02, 2020 Rating: 5

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